Título: Vale terá nova siderúrgica no Pará
Autor: Damé, Luiza
Fonte: O Globo, 15/08/2008, Economia, p. 33

Projeto de usina será antecipado para dezembro de 2012, a pedido de Lula

Luiza Damé

BARCARENA (PA). Durante a inauguração da expansão da linha de produção da Alunorte, o presidente da Vale, Roger Agnelli, confirmou ontem a construção de uma nova siderúrgica em Marabá, no sul do Pará, e anunciou a antecipação, de novembro de 2013 para dezembro de 2012, do cronograma de início de operação da usina, atendendo a pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo Agnelli, a implantação do pólo siderúrgico de Marabá vai consumir US$3,3 bilhões e gerar 16 mil empregos, na primeira fase.

Lula, que classificou o investimento na Região Norte como mudança de comportamento, lembrou que na inauguração não estará mais no governo, e brincou:

- Eu estarei fora do governo há dois anos e espero ser convidado. Mas político sem mandato não recebe nem vento nas costas.

Serão até 5 milhões de toneladas de aço por ano

Para antecipar o cronograma da obra, os governos estadual e federal se comprometeram a acelerar o processo de licenciamento ambiental do empreendimento. Agnelli afirmou que o pedido de licença deverá ser feito até o fim do primeiro semestre do próximo ano e cumprirá todas as exigências da legislação ambiental brasileira, apontada por ele como uma das mais rígidas do mundo.

- A agenda ambiental é uma questão estratégica da Vale. Nossos projetos são tecnicamente viáveis e têm preocupação ambiental - afirmou Agnelli.

Pelo projeto, a siderúrgica vai produzir até 5 milhões de toneladas de aço por ano. Na fase de operação, vai gerar 3.500 empregos diretos e 14 mil indiretos. O pólo siderúrgico de Marabá vai movimentar a economia da região, pois serão necessários investimentos em infra-estrutura.

A governadora do Pará, Ana Júlia Carepa, anunciou a construção de um anel viário, para retirar o trânsito pesado do centro da cidade, e a duplicação da rodovia que corta o distrito industrial. Três obras do governo federal necessárias para o desenvolvimento do pólo fazem parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) - a eclusa de Tucuruí, a hidrovia do Tocantins e a ampliação do porto da Vila do Conde.

No evento, Agnelli anunciou outros projetos da empresa, incluindo educação profissional e cursos de especialização e a construção de uma nova refinaria de alumina da Alunorte, em Barcarena, um investimento estimado em US$1,8 bilhão, para produção de alumina. Esse projeto está em fase negociação com a Norsk Hydro (empresa da Noruega). Com as duas novas linhas de produção inauguradas ontem, a Alunorte vai produzir 6,26 milhões de toneladas de alumina por ano. O investimento foi de US$1,1 bilhão.

Em seu discurso, Lula ressaltou a mudança no perfil de desenvolvimento do país, que se voltou para as regiões mais pobres. Segundo ele, no modelo adotado anteriormente, os investimentos eram direcionados apenas para os estados desenvolvidos, que já têm infra-estrutura, universidades e mercado consumidor, transformando o Norte e o Nordeste numa "pátria distante do próprio território nacional".

- Pensando assim, o Brasil foi ficando meio torto, só cresceu de um lado. O Norte e o Nordeste são vítimas dessa visão de só fazer investimento onde as coisas estavam prontas - afirmou Lula, acrescentando que, nesse modelo, poucos tinham condições de competir com São Paulo.

US$59 bilhões em investimentos no mundo

O presidente foi motivado pelo discurso de Agnelli, que anunciou um investimento de US$59 bilhões em todo o mundo, até 2012. Desse total, 77% ficarão no Brasil, sendo US$20 bilhões no Pará. A empresa pretende criar nesse período 62 mil empregos no Brasil, sendo 35 mil no Pará.

- Com essa mudança de comportamento, o Brasil será mais justo e terá mais possibilidade de um crescimento equânime - afirmou Lula, acrescentando que a construção da siderúrgica vai induzir a implantação de outras empresas na região.

- Eu falei para o Agnelli: o Brasil não pode se dar ao luxo de se transformar em importador de aço. O maior exportador de minério do mundo é importador de aço. É como se tivéssemos que comprar feijão para comer. É como se vocês aqui do Pará fossem comprar açaí de São Paulo.

O presidente afirmou que no próximo dia 28 vai fazer uma reunião para dar visibilidade aos empreendimentos - privados e públicos - em andamento no país. O formato dessa reunião ainda está sendo definido.