Título: Ex-parlamentar presa revela escândalos, e algo mais
Autor: Figueiredo, Janaína
Fonte: O Globo, 17/08/2008, O Mundo, p. 67
Colombiana Yidis Medina, que vendeu voto a Uribe, dá entrevista explosiva e posa nua na mesma revista
José Meirelles Passos
WASHINGTON. Primeiro, em fins de abril passado, Yidis Medina provocou um escândalo na Colômbia ao revelar que, em meados de 2004, quando era deputada, vendeu seu voto a ministros do governo de Álvaro Uribe. O objetivo seria alterar a Constituição do país, o que de fato aconteceu, de forma a permitir a reeleição do seu presidente. Uribe foi reeleito em 2006. Agora, já atrás das grades, a ex-parlamentar acaba de engrossar a sua denúncia, turbinando ainda mais as investigações hoje focadas nos supostos agentes do suborno.
Yidis abriu o leque das acusações numa entrevista exclusiva em que afirma que ¿a política nacional é uma máfia¿ e, ao sugerir que outros parlamentares também venderam o seu voto, os incita à confissão:
¿ Estou fazendo um ato de contrição com a minha vida. Por isso, as pessoas que quiserem se arrepender que o façam e venham a público para que o país saiba o que aconteceu. Esse é um país de moral dupla, igual à que eu tive num determinado momento ¿ disse ela. ¿ É necessário que o país conheça o mundo de mentiras e de infâmias que se manejam.
Yidis foi mais longe ainda na entrevista que está provocando polemica no país:
¿ O presidente (Uribe) não pode desconhecer que, com o meu voto, conseguiu a reeleição ¿ disse ela, revelando que chegara a telefonar para Tomás Uribe, filho do presidente, para pedir que ele marcasse um encontro dela com o seu pai, no qual a deputada pretendia queixar-se de que as pessoas que haviam comprado o seu voto não estavam cumprindo com o prometido, em termos de empregos no governo que lhe haviam prometido obter para amigos e familiares dela.
Tão explosiva quanto as suas declarações foi a forma escolhida pela ex-deputada para divulgá-las: uma longa entrevista à revista masculina ¿Sohos¿, acompanhada de um pequeno ensaio com ela própria, posando nua (sem cobrar cachê), em fotos feitas no próprio Presídio de Mulheres do Bom Pastar, de Bogotá, onde cumpre sua pena.
A edição que já está nas ruas tem duas capas: na principal aparece a modelo Nataly Umaña; e na de trás ¿ que os jornaleiros preferiram destacar em suas bancas ¿ uma pose da ex-deputada e o título ¿Yidis Nua¿. O título da reportagem de 14 páginas é mais sugestivo: ¿Yidis, o corpo do delito¿.
Filha de um mecânico e de uma enfermeira e mãe solteira de três filhos, ela tinha sido uma vereadora de prestígio em sua cidade natal, Barrancabermeja, no interior do país, onde depois do secundário freqüentou apenas alguns meses um curso de psicologia. Yidis assumiu o erro dizendo que não pensava que a política, no nível nacional, fosse tão suja:
¿ Essa história mostra como a política nacional é porca, como utilizam a gente do interior e a engana ¿ comentou, contando que depois de lhe darem alguns cargos prometidos, na troca pelo voto, acabaram tomando-os de volta depois da reeleição de Uribe, o que motivou a sua denúncia.
¿ Quero sair dessa vida política que me levou a aceitar coisas que eu jamais devia ter aceito ¿ disse ela.
Um dos acusados de suborno por ela, Sabas Pretelt de la Vega, na época ministro do Interior e de Justiça, atualmente embaixador na Itália, já foi ouvido pela Corte Suprema. O próximo a ser convocado é o ministro de Proteção Social, Diego Palacio, quem Yidis insinua ser quem comandava um pequeno grupo de funcionários que comprava votos em favor do governo.
Segundo a promotoria, a investigação preliminar indicou que Palacio não deu uma explicação satisfatória sobre o que fazia no Congresso nos dias em que se discutiu a reeleição. Na entrevista à ¿Sohos¿, Yidis atacou:
¿ Palacio é uma pessoa supremamente ambiciosa para os negócios. É uma das pessoas que mais prejuízo vem causando ao governo e ao país.
O ex-vice-ministro de Justiça, Mário Iguarán, que era o autor do projeto de reforma constitucional, e atualmente é promotor federal; mais o ex-secretário da Presidência da República, Alberto Velásquez, e o ex-vice-ministro do Interior, Hernando Angarita, também estão na mira da Justiça por suposto envolvimento no suborno.
¿ Que não venham se fazer de santinhos¿ resmungou Yidis na entrevista a ¿Sohos¿.