Título: Lugo promete fazer profunda reforma militar
Autor: Figueiredo, Janaína
Fonte: O Globo, 17/08/2008, O Mundo, p. 67
Historicamente vinculadas ao Partido Colorado, Forças Armadas terão que conviver com movimentos de esquerda
Janaína Figueiredo
ASSUNÇÃO. Em seu discurso de posse, o novo presidente do Paraguai, o ex-bispo Fernando Lugo, defendeu a necessidade de "dignificar" as Forças Armadas, antecipando sua intenção de aplicar uma profunda reforma militar, que incluiria a renovação da cúpula que herdou do ex-presidente Nicanor Duarte Frutos (2003-2008). Segundo confirmaram ao GLOBO fontes do novo governo paraguaio, a limpeza militar será parte da cruzada do ex-bispo para acabar com a corrupção no país.
- Todos sabemos que a corrupção é grande entre membros das Forças Armadas. Conhecemos como vivem muitos militares paraguaios, com luxos que jamais poderiam pagar com seus salários. Com Lugo, isso vai acabar - disse uma fonte do novo Gabinete, que pediu para não ser identificada.
Novo ministro conhecido por idoneidade
Não se trata de uma jogada simples, num país acostumado a golpes de Estado e levantes militares. Mas o novo presidente parece disposto a assumir os riscos. A designação do general da reserva Luis Bareiro Spaini como ministro da Defesa confirmou a decisão de Lugo de implementar drásticas mudanças nas Forças Armadas. O novo ministro é um militar conhecido por sua idoneidade, característica que seria pouco comum entre a maioria dos generais paraguaios. Historicamente vinculadas ao Partido Colorado, que sexta-feira passada entregou o poder após 61 anos de hegemonia, as Forças Armadas deverão aprender a conviver com um governo integrado por diversos partidos, entre eles movimentos de esquerda.
- Para os militares não será nada fácil adaptar-se aos novos tempos. Eles estão acostumados a negociar cargos, salários, existem grandes nichos de corrupção. A esquerda sempre foi o inimigo - comentou o analista Hugo Brítez.
Segundo ele, "depois de uma primeira limpeza comandada pelo ex-presidente Juan Carlos Wasmosy (1993-1998), as reformas de Lugo serão as mais radicais desde a redemocratização do país, em 1989".
- Lugo quer dar um perfil profissional e institucional às Forças Armadas - explicou o analista paraguaio.
A reforma do novo governo também incluiria as forças policiais do país, tradicionalmente vinculadas a casos de corrupção e contrabando, entre outros delitos. Para Britez, "todos os paraguaios sabem que a polícia é uma gangue que atua junto a foragidos e delinqüentes".
- Os policiais sempre foram aliados dos caudilhos colorados. Quando se faz uma seleção para incorporar novos agentes, são escolhidos os filhos de dirigentes colorados, existe um acordo de proteção mutua que agora vai acabar, porque o Partido Colorado perdeu o poder - afirmou o analista.
Reformas chegariam ao Suprema Tribunal de Justiça
Quando foi empossado, Lugo disse que "chegou o tempo em que as Forças Militares devem dignificar-se e serem amigas e companheiras da comunidade". O novo presidente também se referiu às forças policiais:
- As estatísticas de corrupção nesta força (policial) devem reduzir-se drasticamente - declarou o novo presidente.
As reformas de Lugo também chegariam ao Supremo Tribunal de Justiça. Dos nove membros que integram o tribunal, sete deveriam abandonar o cargo até março do ano que vem. O problema é que, neste caso, o presidente precisará do apoio do Congresso, onde não tem maioria e dependerá de alianças com setores da oposição, entre eles a bancada colorada comandada pelo general Lino Oviedo.
Muitos paraguaios temem que Lugo não consiga derrotar uma estrutura de poder construída e consolidada durante mais de seis décadas. Para este ex-bispo, defensor da Teologia da Libertação, que se formou realizado trabalhos sociais, por exemplo, em comunidades indígenas do Equador, nada parece impossível. Lugo pertence a uma família que foi perseguida pela ditadura de Stroessner (1954-1989), seu pai foi preso dezenas de vezes durante o governo militar e seus irmãos foram obrigados a exilar-se (um deles morreu no exílio, na Suécia).
- Não se trata de rancor e sim de justiça. O presidente defende um modelo de transparência e todos deverão seguir as mesmas regras - comentou um assessor do novo presidente.