Título: TRE deve vetar celular na urna
Autor: Borges, Waleska; Bottari, Elenilce
Fonte: O Globo, 16/08/2008, O País, p. 3

Traficantes e milicianos estariam coagindo eleitores a fotografar voto para provar apoio

Waleska Borges e Elenilce Bottari

OTribunal Regional Eleitoral (TRE) do Rio estuda a proibição do uso do celular no momento do voto na urna. A proposta do coordenador estadual da Fiscalização da Propaganda Eleitoral, juiz Luiz Márcio Pereira, surgiu depois de denúncias de que, em comunidades da Zona Oeste do Rio dominadas por traficantes e milicianos, eleitores estão sendo coagidos a levar celulares com câmeras para fotografar a imagem do visor que aparece depois que digitam o número do candidato na urna. A proposta está sendo analisada pela corregedora regional eleitoral, juíza Jaqueline Montenegro, e deverá ser discutida na próxima semana pelo pleno do TRE.

- Temos indícios muito fortes de que esta nova modalidade de se tentar intimidar eleitores (a coação para que fotografem a urna e provem que votaram no candidato da milícia ou do tráfico) já esteja acontecendo em algumas comunidades. Na verdade, essa é mais uma tentativa de enganar o eleitor. Afinal, ele pode fotografar o visor e depois, em vez de confirmar o voto, basta apertar o botão de corrigir e refazer o voto - explicou Luiz Márcio.

A medida, segundo o juiz, seria uma forma de garantir tranqüilidade aos eleitores dessas comunidades.

- Hoje, o eleitor entrega o título ao mesário e vota. Na volta, pega de volta o título e o comprovante de voto. Com a medida, ele deixaria o título e também o celular com o mesário no momento do voto - disse o juiz, frisando que, se for aprovada pelo TRE, a proposta poderá ser encaminhada ainda ao TSE, como sugestão.

Assim como os técnicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o juiz disse que não há possibilidade de cartões magnéticos captarem o voto do eleitor, como vem sendo difundido por grupos armados.

TRE orienta eleitores em comunidades

Diante de denúncias de que moradores das favelas do Batan e da Carobinha, na Zona Oeste, estão sendo ameaçados por traficantes e milicianos, o TRE deflagrou ontem a primeira ação de conscientização do eleitor. Escoltados por cerca de 30 policiais do 14 º BPM (Bangu), 15 fiscais do tribunal distribuíram cartilhas de orientações e colaram cartazes nas comunidades dizendo "vote sem medo" e "não aceite ameaças". O TRE também fez uma operação de fiscalização na Favela do Sapo, em Senador Camará.

A ação do TRE começou pela Favela do Batan, em Realengo, onde milicianos torturaram repórteres do jornal "O Dia", em maio. Segundo o chefe da fiscalização da propaganda do TRE, Luiz Fernando Santa Brígida, há denúncias de que milicianos e traficantes da favela dizem aos moradores que podem identificar os votos. Uma das maneiras seria por fotos feitas pelos eleitores com o celular e com a instalação de cartões magnéticos (por traficantes e milicianos) nas urnas.

- Instalar cartão magnético para identificar o voto é uma bravata - afirma Santa Brígida, lembrando que a campanha "O voto é só seu", do TRE e do Tribunal Superior Eleitoral, vai ocorrer em outras favelas da cidade.

Os fiscais do TRE colaram cartazes em duas casas que serviam como quartel general da milícia, na Favela do Batan. Durante a ação, que ocorreu em clima de tranquilidade, eles retiraram 53 placas da candidata a vereadora Carmen Guimarães (PTdoB), a Carminha Jerominho. Ela é filha do vereador Jerônimo Guimarães Filho (PMDB), o Jerominho, preso sob suspeita de comandar milícias na Zona Oeste. Outras 22 placas de candidatos em locais irregulares foram retiradas.

- As placas da Carminha foram colocadas à revelia dos moradores quando ela esteve aqui no Batan, anunciando que o pai dela tinha sido o responsável pela instalação do Posto de Policiamento Comunitário. Isso é mentira e uma afronta ao Estado, que instalou o posto - disse o presidente da Associação de Moradores do Batan, Wolney de Paula, que é tenente do Batalhão de Operações Especiais.

Moradores informaram que Carminha estava acompanhada de um grupo de milicianos armados. Segundo Santa Brígida, o presidente da associação de moradores será ouvido sobre o assunto e convidado a apresentar testemunhas ao TRE.

- A coação contra o eleitor é crime eleitoral - disse Santa Brígida que é a favor das tropas federais para reforçar as campanhas eleitorais no Rio.

Na Carobinha, em Campo Grande, os fiscais colaram cartazes da campanha do TRE sobre pichações de uma facção criminosa. Uma delas dizia "poder paralelo do Rio".

Ontem, o TRE também fez uma ação de fiscalização na favela do Sapo, em Senador Camará. Foram retiradas 287 placas e galhardetes de candidatos a vereador e a prefeito em locais irregulares, como poste, árvores e fachadas de prédios..