Título: A incrível façanha de caminhar na corda bamba
Autor:
Fonte: O Globo, 19/08/2008, O Mundo, p. 26

Como Musharraf desempenhou um jogo duplo com Washington e o Talibã, até perder utilidade para os EUA

Jane Perlez

ISLAMABAD. Um soldado por dentro e um homem de decisões impetuosas, Pervez Musharraf, de 65 anos, encerrou o apoio do Paquistão aos líderes do Talibã no Afeganistão após os atentados de 11 de setembro de 2001, tornando-se um crucial aliado de Washington em sua campanha contra o terrorismo.

Foi um ataque ousado, que levou o governo Bush à imediata guerra contra a al-Qaeda, e permitiu aos Estados Unidos trabalharem com a inteligência paquistanesa para prender altos membros da organização dentro do Paquistão. Musharraf deu ainda permissão a Washington para atacar alvos da rede terrorista em áreas tribais do país.

Mas as garantias se mostraram menores do que o prometido e, embora Musharraf tenha estabelecido uma ligação pessoal com o presidente George W. Bush, o general paquistanês se provou um parceiro duro e frustrante para os EUA. A poderosa agência de inteligência interna nunca cortou laços com o Talibã.

Nove anos depois, o Talibã trava uma feroz batalha contra os Estados Unidos no Afeganistão e dá abrigo à al-Qaeda em áreas tribais. Um rejuvenescido Talibã agora virtualmente controla a região tribal paquistanesa que faz fronteira com o Afeganistão e pressiona o restante do país, ameaçando a estabilidade de uma nação que tem armas nucleares e 165 milhões de habitantes.

¿ Musharraf continuou a dar cobertura ao Talibã, mas conseguiu convencer os americanos por muitos anos de que não fazia um jogo duplo ¿ contou Ahmed Rashid, especialista paquistanês em Talibã e autor de ¿Descent into chaos,¿ livro que detalha a relação entre Musharraf e Washington. ¿ Foi uma incrível façanha de andar na corda bamba.

A façanha foi tamanha que Musharraf recebeu mais de US$10 bilhões em assistência militar para seu Exército. Metade deveria ser para melhorar habilidades de combate à insurgência. A maior parte do dinheiro nunca chegou às Forças Armadas e foi para o orçamento geral, mas o governo Bush estava tão ansioso em manter Musharraf como aliado que preferiu não reclamar.

Washington finalmente perdeu a paciência mês passado. Numa cartada diplomática, o Pentágono e a CIA (a agência central de inteligência) mostraram ao novo primeiro-ministro, Yousaf Raza Gilani, provas de que o serviço de inteligência paquistanês ajudou a planejar o atentado de 7 de julho contra a Embaixada da Índia na capital afegã, Cabul.

Mas àquela altura, o poder de Musharraf já estava eclipsado, e o governo Bush reconheceu que sua utilidade havia passado.

Musharraf renunciou como comandante do Exército em novembro passado.

Após derrubar o primeiro-ministro Nawaz Sharif em outubro de 1999, Musharraf começou seu mandato como presidente com uma onda de apoio popular após uma década de governos civis fracos e corruptos.

No início, atraiu pessoas competentes para o seu Gabinete e prometeu debelar problemas antigos, incluindo a proliferação de madrassas, as escolas religiosas que se tornaram campos férteis para extremistas islâmicos. Mas as madrassas permaneceram intocáveis, principalmente porque o presidente entregou a tarefa ao Ministério de Assuntos Religiosos, que se opunha ao plano.

Musharraf apoiou reformas importantes na mídia e no direito da mulher. Atualmente, há dezenas de emissoras privadas, muitas delas com turbulentos programas políticos de entrevistas. Também adotou medidas para melhorar a condição das mulheres, ao pressionar por reforma nas severas leis islâmicas.

¿ Musharraf tentou construir um Estado moderno e instruído, mas demonstrou que não se poder fazer isso baseado na estrutura de uma maquinaria política clientelista e militarista ¿ disse Jehangir Tareen, ex-ministro da Indústria e Projetos Especiais de Musharraf.

Um de seus grandes defeitos, para Tareen, foi desdenhar dos métodos democráticos e de políticos civis.