Título: Moscou, um dilema para a Europa
Autor:
Fonte: O Globo, 19/08/2008, O Mundo, p. 27
Steven Erlanger
PARIS. Enquanto ministros do Exterior se reúnem hoje para uma reunião de emergência da Otan sobre a crise na Geórgia, a Europa está dividida sobre como equilibrar seus laços com a Rússia com a nova ofensiva do país.
O dilema europeu é claro, diz o diretor da consultoria Eurasia Group, Clifford Kupchan:
¿ Como conciliar uma dependência crescente na Rússia por energia com um crescente desconforto político com (o premier Vladimir) Putin. É um círculo muito difícil de se enquadrar.
Essa não é uma briga da Europa, disse o colunista do jornal ¿Süddeutsche Zeitung¿, Stefan Kornelius.
¿ Não vejo a Europa preparada para ir à guerra contra si própria por causa da Geórgia ¿ disse.
A Otan poderia começar a planejar a defesa, incluindo investimento em infra-estrutura militar, a novos membros como os países bálticos e a Polônia para uma guerra ainda que hipotética contra a Rússia.
Mas França, Alemanha e Itália permanecem profundamente dependentes da energia russa.
O presidente da França, Nicolas Sarkozy, está ávido por fazer a mediação entre Washington e Moscou, e a chanceler alemã, Angela Merkel, está numa grande coalizão com a esquerda.
¿ A Rússia nunca foi um Estado-nação, mas sempre um império ¿ diz Jacques Rupnik, especialista em Leste Europeu do instituto político Sciences-Po, em Paris
A Federação Russa nunca foi um Estado dentro de seus atuais limites geográficos, e mais de 25 milhões de russos moram fora do país.
¿ Essas fronteiras são novas e, de alguma forma, artificiais ¿ diz Rupnik. ¿ E nós no Ocidente nunca medimos integralmente o efeito dessa perda do império para os russos.
A Ucrânia tem seu próprio enclave russo, a Criméia. Como a Ossétia, dividida por Joseph Stálin de forma que a Ossétia do Norte ficasse na Rússia e a do Sul, na Geórgia, a Criméia é como uma pílula de veneno para manter a Ucrânia na linha, sustentada pela quase completa dependência de energia da Rússia.
É por isso que, para alguns, a resposta da Otan à Rússia deveria envolver a Ucrânia. Mas isso também explica por que muitos europeus não querem se comprometer em defender mais um vizinho russo quando não têm nem vontade nem os meios para reforçar esse comprometimento.
Desde a queda do Muro de Berlim, em 1989, houve várias mudanças no mapa da Europa ¿ mais recentemente no Kosovo.
¿ Ainda estamos em processo de construir e formar Estados ¿ disse Rupnik. ¿ O mapa não está concluído.
STEVEN ERLANGER escreveu este artigo para o New York Times