Título: Minc nega cana e usina de álcool no Pantanal
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Fonte: O Globo, 26/08/2008, O País, p. 12
Após receber ambientalistas, ministro anuncia faixa de defesa e medidas de combate a mau uso do solo local
BRASÍLIA. O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, voltou a afirmar ontem que não haverá instalação de novas usinas de álcool nem plantio de cana-de-açúcar no Pantanal. Ele falou sobre o assunto após se reunir com ambientalistas que foram a Brasília para cobrar explicações sobre outras medidas recentes que envolvem acordos com o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes. Minc disse que o aumento da produção de álcool é uma prioridade do governo, mas afirmou que o país não pode permitir a associação entre biocombustíveis e poluição.
Segundo o ministro, permitir que a fabricação de etanol contribua para a destruição de riquezas nacionais significa dar argumento aos países que tentam barrar a exportação do álcool brasileiro.
- O governo quer defender o etanol brasileiro. E, para defendê-lo, tem que deixar claro que é o etanol verde. Se agredir a Amazônia ou o Pantanal, aqueles que querem impor barreiras lá fora vão dizer que o nosso etanol é sujo e contamina os rios do Pantanal - afirmou o ministro.
Em nota, Minc disse ainda: "Em torno do Bioma Pantanal, será criada uma faixa de exclusão para além do Bioma Pantanal. E mais: após essa faixa de exclusão, serão ainda tomadas medidas para mitigar o impacto das atividades econômicas já instaladas na região há mais de dez anos, como, por exemplo, o chamado plantio direto de cana, que gera menos movimento de terra e menos assoreamento, e a redução progressiva do uso de agrotóxico, visando a sua eliminação".
No sábado, O GLOBO informou que o governo quer permitir a plantação de cana na região conhecida como Planalto do Pantanal. Segundo acordo de Minc com Stephanes, confirmado ao jornal pelo ministro do Meio Ambiente, as plantações poderão avançar em áreas hoje utilizadas como pastagens ou em lavouras de soja, milho e algodão. O Ministério da Agricultura informou que o texto que permitirá essa mudança já está na Casa Civil.
Ambientalistas dizem que o plantio de cana no Planalto do Pantanal pode contaminar com vinhoto, um resíduo tóxico produzido na fabricação de álcool, os rios da região, que integram a Bacia do Alto Paraguai e desembocam nas áreas alagadas do Pantanal.
Minc festeja "trégua" com ambientalistas
Ontem, Minc prometeu dar incentivos para aumentar o aproveitamento do vinhoto na indústria do álcool. O ministro disse que as quatro usinas de álcool que já existem na Amazônia serão mantidas, mas não haverá autorização para a instalação de novas fábricas na floresta:
- As que já existem não vão ser dinamitadas, e nenhuma usina nova será feita.
Minc recebeu cópia de um manifesto com duras críticas a sua gestão, assinado por 13 ONGs de defesa do meio ambiente, como WWF Brasil, Greenpeace e Amigos da Terra. Segundo o documento, o ministro teria contrariado seu discurso de posse ao fazer concessões ao agronegócio. Ao fim do encontro, a portas fechadas, Minc anunciou a criação de um fórum permanente para discutir as políticas do setor com os ambientalistas. O ministro disse ter celebrado uma trégua com as entidades:
- Algumas questões estavam circulando pela imprensa e, na falta de mais diálogo, acabavam sendo respondidas também pela imprensa.
Três dias depois de acusar Minc de atuar como um segundo ministro da Agricultura, o diretor de políticas públicas do Greenpeace, Sérgio Leitão, disse que ficará atento às próximas medidas do ministro. Após o encontro, ele afirmou que Minc não pode fazer concessões a cada pedido da bancada ruralista no Congresso:
- Essa discussão no varejo com os ruralistas nunca tem fim, porque eles sempre apresentam novos pedidos.