Título: Nunca dá zebra para o bicho
Autor: Bruno, Cássio; Otavio, Chico
Fonte: O Globo, 24/08/2008, O País, p. 3
Rede de proteção na Câmara Municipal impede projetos que contrariam bicheiros
Cássio Bruno, Chico Otavio e Ludmilla de Lima
Overeador carioca Alberto Salles não dá bola para convenções. Na semana passada, indiferente ao decreto municipal que proíbe o fumo em ambientes públicos fechados, acendeu três cigarros em seu gabinete enquanto discorria sobre a Liga das Escolas de Samba e o carnaval carioca. No meio da conversa, desmereceu outra lei, a que proíbe os jogos de azar, ao defender o jogo de bicho como uma tradição da cidade e a legalização dos cassinos.
¿ O jogo funciona até hoje no país. Está na cultura ¿ disse.
Oficialmente, os barões do jogo não têm representantes na Câmara Municipal do Rio. E nem precisavam. Na atual legislatura, uma eficiente rede de proteção, que une simpatizantes da causa, como Alberto Salles, à bancada governista vem barrando toda tentativa de impor obstáculos a seu poder na vida da cidade. Da CPI dos Bingos ao projeto de lei que tirava da Liga das Escolas de Samba o comando do carnaval no Sambódromo, nada escapa ao controle dos chefões da contravenção.
Mesmo sem ter uma bancada do jogo, os barões demonstraram força, em abril deste ano, quando a Câmara derrubou, em segunda votação, o projeto de lei apresentado pela CPI do Carnaval, que tirava a organização dos desfiles do Grupo Especial das mãos da Liga e a devolvia à responsabilidade ¿exclusiva, direta e intransferível¿ da Prefeitura. Na ocasião, 21 vereadores, dos quais dez do DEM, partido do prefeito Cesar Maia, votaram contra o projeto e apenas três a favor.
Ao lado do vereador Paulo Cerri, líder do governo na Câmara, Alberto Salles (PSC) trabalhou intensamente pela derrubada:
¿ O prefeito sabe o pepino que é administrar o carnaval. O nível iria despencar. Caso isso ocorra, há um risco de os atuais gestores (da Liga) abandonarem o carnaval. Eles trabalharam muito para fazer o carnaval chegar onde chegou ¿ justificou Salles.
Vereadores têm camarote vip no Sambódromo
Salles se considera um homem do carnaval. Além de desfilar há 21 anos pela Beija-Flor, com direito à camisa da diretoria, circula pela pista do Sambódromo com credencial da Liga. É também responsável, desde 2003, pela organização do camarote da Câmara na Sapucaí. A farra é regada a salgados, uísque, cerveja e refrigerantes, mordomia, segundo Salles, custeada pela Liga, pelo empresário Chico Recarey e pelos próprios vereadores.
Cada parlamentar tem direito a levar duas pessoas. Quem não aparece, garante ele com um sorriso malicioso, sempre manda alguém em seu lugar. Salles disse que, este ano, se lembra de ter visto por lá os colegas Stepan Nercessian (PPS), Jorge Mauro (DEM) e Paulo Cerruti (DEM), além das filhas de Lilian Sá (PR). Do grupo, Lilian é de longe a vereadora com posições mais controversas sobre o desfile. Como integrante da CPI, assinou o projeto que desprivatizava o carnaval. Mas, no plenário, surpreendeu ao votar contra.
O diálogo da Câmara com o mundo do jogo e do samba reserva outras surpresas. Salles, por exemplo, apesar de ser francamente favorável à legalização da jogatina, presidiu na legislatura passada a CPI dos Bingos. Ninguém na Casa, nem ele próprio, sabe dizer que fim a comissão levou.
Na defesa dos interesses da Liga, Salles não está sozinho. Outro vereador que reivindica ligação com o samba para explicar a sintonia com os interesses dos barões do jogo é Jorge Mauro. Investigações da Operação Furacão, desencadeada pela Polícia Federal para desmontar a rede de influência que a máfia dos caça-níqueis mantinha na Justiça e na Polícia, colheram provas de que Jorge teria participado de uma reunião na Liga em fevereiro do ano passado. O vereador nega:
¿ Nunca estive lá, mas hoje, o maior carnaval do século está sendo feito pela Liga. Não tem cabimento dizer que o carnaval não é bem feito. Todos os legisladores que vão à avenida têm de ser fiscais ¿ alega Jorge Mauro, que diz desfilar e ajudar a Imperatriz Leopoldinense há 14 anos.
Desde 1995, na primeira gestão de Cesar Maia, o carnaval é controlado pela Liga. No ano passado, este contrato passou por turbulências com a CPI do Carnaval, aberta depois da operação que levou à prisão o então presidente da Liga, Ailton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães; o presidente de honra da Beija-Flor, Anísio Abraão David; e o coordenador dos jurados, Júlio César Sobreira (sobrinho de Guimarães). Todos, antes de depor na CPI, foram recepcionados no gabinete da liderança do DEM. Procurados, a Liga, Paulo Cerri e Lilian Sá não responderam aos pedidos de entrevista do GLOBO.