Título: Ameaças ao Pantanal
Autor: Franco, Bernardo Mello
Fonte: O Globo, 27/08/2008, O País, p. 13

Israel Klabin

Meu caro Minc,

Saudações ecoconturbadas pelas notícias de jornal anunciando ameaças a um dos ecossistemas mais importantes do planeta: o Pantanal.

Não quero ensinar coisas sobre as quais você é mestre, mas, só para lembrar, o Pantanal é uma das maiores áreas úmidas que ainda restam no mundo, cobrindo quase 140.000 km² no período das cheias, tendo parte dela sido incluída pelo Brasil como uma ¿Área Úmida de Importância Internacional¿, na Convenção de Ramsar. Ela chama a atenção internacional dos defensores da natureza devido à sua rica biodiversidade, registrando quase 300 espécies de peixes, 1.100 espécies de borboletas e mais de 650 espécies de pássaros. Essas áreas úmidas, bem como as similares no Chaco paraguaio, existem devido a uma dinâmica e complexa relação entre os rios e as áreas inundáveis de planície.

Esse ecossistema, como tantos outros biomas frágeis, está sob séria ameaça oriunda das mudanças climáticas provocadas pelo homem ou ainda pela utilização indevida dos seus recursos naturais através das pressões de um modelo econômico predatório.

O Pantanal não está tão bem estudado quanto a Amazônia e, portanto, qualquer decisão temerária sobre a utilização, seja das terras altas ou do Pantanal propriamente dito, pode levar a uma catástrofe ambiental somente comparável àquela provocada pelo regime comunista no Mar de Aral, na antiga União Soviética.

Onze anos atrás, participamos de um estudo detalhado com relação à ameaça que a Bacia do Paraguai-Paraná sofreu quando do famoso projeto de navegação da hidrovia. Naquela ocasião, alguns pontos fundamentais nos permitiram, em conjunto com outras instituições científicas da mais alta relevância, conseguir o bloqueio dos recursos destinados àquele projeto que previa uma retificação do rio a fim de adaptá-lo aos interesses privados de proprietários de barcaças que, outrossim, não se adaptariam ao curso do rio.

Peço a você que leve avante um estudo mais detalhado das conseqüências da utilização seja de terras altas, seja de terras baixas, pois tanto uma quanto a outra são de fundamental importância para a preservação dessa riqueza enorme que a natureza nos forneceu e da qual somos depositários e responsáveis.

Os pontos, ainda indeterminados, para que algum projeto de sustentabilidade econômica para o Pantanal venha a ser elaborado e que nunca foram adequadamente estudados são:

Compreensão mais profunda da interação dos sistemas complexos, tais como o equilíbrio e o fluxo da água na parte superior do Rio Paraguai;

Deterioração da qualidade da água que pode ser esperada em função do aumento do número de derramamentos e acidentes, que poderiam envolver perigosos produtos químicos e não foram avaliados adequadamente;

Impactos ambientais das possíveis mudanças hidrológicas, como por exemplo na pesca, oriundos de mudanças na vegetação aquática;

Aumentos na erosão em função do desenvolvimento da agricultura nas regiões altas;

Possíveis mudanças nos recursos hídricos por modificação na evapo-transpiração e no regime de chuva nas cabeceiras dos rios afluentes da Bacia Paraguai-Paraná.

Tenho certeza de que você sairá dessa polêmica como herói em mais essa batalha. As gerações futuras te agradecem.

ISRAEL KLABIN é presidente do Conselho Curador da FBDS (Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável)