Título: Por que estamos na contrmão?
Autor:
Fonte: O Globo, 23/08/2008, O País, p. 10

Anna Azevedo ¿ cineasta, dirigiu, entre outros, `Rio de Jano¿, `Batuque na cozinha¿ e `Dreznica¿, lançados pela Riofilme

AS ADMINISTRAÇÕES públicas modernas classificam o audiovisual como atividade estratégica de Estado. O Rio rema contra a maré. Um exemplo é o ocaso da Riofilme. A Riofilme, que apesar de municipal acudiu durante uma década todo o cinema brasileiro, à deriva com o fim da Embrafilme, em 1990, hoje está com suas atividades de apoio à produção estagnadas. E a distribuição de filmes respira com ajuda de aparelhos ¿ no caso, a injeção financeira do Prêmio Adicional de Renda recebido em 2006 e 2007, totalizando R$1.865.571,81, oriundos dos cofres da Ancine (leia-se governo federal). E quando as leis federais de incentivo tiraram dos ombros da Riofilme a tarefa de carregar sozinha o cinema nacional, sobrou ainda para a distribuidora carioca a função de dar conta do audiovisual do estado. Pernambuco, Ceará, Distrito Federal, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, São Paulo ¿ citando só os que vêm à mente ¿ possuem mecanismos de fomento a cinema e vídeo. Já o Estado do Rio... Desde a sua inauguração, em 1992, a Riofilme distribuiu 200 filmes, entre eles ¿Central do Brasil¿. Películas que jamais seriam lançadas pelas grandes distribuidoras, como ¿Conceição¿, chegaram ao público graças à política de apoio ao cinema independente da distribuidora carioca. Em 1999, a Riofilme lançou uma média de 1,6 filme por mês.

Pois é, candidatos: a Riofilme é a maior distribuidora de cinema nacional. E isso não é pouco. Se, ainda assim, esse dado parece ser irrelevante ¿ vide o dar com os ombros da atual administração ¿ vamos, então, analisar o caso a partir do ponto de vista de mercado. O setor cultural e criativo, do qual o audiovisual faz parte, assina o cheque de 5% do PIB nacional, segundo o IBGE. Relatório da Price Waterhouse Coopers estima que, até 2010, ele crescerá 8,5% ao ano, na América Latina. O cinema, no entanto, saiu da pauta da atual administração. Enquanto isso, cidades menores como Ribeirão Preto e Paulínia, no interior paulista, investem pesado nesta arte. Paulínia é uma das maiores investidoras em Lei do Audiovisual do país. Por que o Rio vai na contramão? No site da distribuidora, a resposta: a empresa ¿vive um momento de redefinição de seu papel de fomentadora do cinema nacional (...)¿. A tal da ¿redefinição¿ ficará como herança para um dos senhores. Que o próximo prefeito ponha um ponto final nessa birra ¿ porque o esvaziamento da Riofilme soa como brincadeira boba de criança idem ¿ e promova as pazes entre a empresa e o cinema carioca. Fechado? Ah, candidatos: não se esqueçam de escolher um presidente para a Riofilme; há vários anos o cargo está vago.