Título: Tarso faz apelo pela paz em Raposa Serra do Sol
Autor: Carvalho, Jailton de
Fonte: O Globo, 29/08/2008, O País, p. 13
Quartiero diz que voto de relator foi declaração de guerra; policiais tentam evitar conflito na região
BRASÍLIA e BOA VISTA. O ministro da Justiça, Tarso Genro, fez ontem um apelo para que não ocorra mais violência na reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima. Tarso elogiou o voto do relator, ministro Carlos Ayres Britto, do Supremo Tribunal Federal, que defendeu a demarcação em terra contínua, como determina decreto do governo. Segundo Tarso, o voto de Britto "dignifica o debate sobre o índio". Ele disse que, no país, não há guerra entre índios e brancos:
- O estado de direito está se consolidando em Roraima. Não adianta explodir pontes, nem fazer mobilizações que levem à violência. Não é vitória de índio contra branco, nem vitória de índio contra arrozeiro. Trata-se da afirmação da soberania do país, que resguarda a pluralidade étnica declarada pela Constituição.
O advogado-geral da União, José Antonio Toffoli, disse esperar que a maioria dos ministros do Supremo acompanhe o voto de Britto, e que o STF conclua a votação dentro de três meses.
Em Roraima, um dia depois de o STF suspender o julgamento da demarcação das terras indígenas, índios e não-índios abrandaram o discurso e demonstraram confiança no final do processo. Ambas as correntes cantaram vitória, apesar de só o voto de Ayres Britto ter sido proferido. O líder do Conselho Indígena de Roraima, Dionito José de Souza, avaliou que o pedido de vista do ministro Carlos Alberto Direito não deve influenciar os demais membros a votarem contra o relator.
- Por enquanto, não há motivo para os arrozeiros comemorarem, pois o voto do relator foi favorável para a gente - disse.
Anteontem, simpatizantes comemoraram com fogos de artifício a paralisação do processo. Índios que estavam no local entenderam a festa como provocação. Policiais da Força Nacional de Segurança tiveram de intervir para acalmar os ânimos.
O arrozeiro Paulo César Quartiero permaneceu em Brasília e manteve contatos com dirigentes da Confederação Nacional da Agricultura e advogados para decidir como agir.
- Ainda não há o que comemorar. O relatório do ministro foi uma declaração de guerra - disse Quartiero.