Título: PE: desnutrição infantil cai à metade
Autor: Lins, Letícia
Fonte: O Globo, 29/08/2008, Economia, p. 33

Em 10 anos, situação melhora, mas índice ainda está abaixo do recomendado

Letícia Lins

RECIFE. Embora ainda sofra com problemas sociais, como altos índices de analfabetismo no campo e desemprego entre a população com mais de 20 anos, a situação da população melhorou em Pernambuco ao longo de uma década. Nesse período, a desnutrição entre adultos encontra-se praticamente controlada, atingindo apenas 2% dos habitantes, enquanto entre as crianças com até 5 anos esse percentual é de 7,7% no estado. É o que revela a terceira pesquisa estadual de Saúde e Nutrição, realizada pela Universidade Federal de Pernambuco e Instituto Materno Infantil Professor Fernando Figueira (Imip).

Segundo a investigação, realizada no ano passado, a desnutrição infantil caiu à metade em dez anos, mas mesmo assim os números encontrados ainda estão abaixo dos indicados pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O último levantamento do gênero no estado foi realizado em 1987.

- Se, em 1997, a desnutrição atingia 16% de crianças com menos de 5 anos, hoje esse percentual é de 7,7%. Porém, a OMS recomenda um mínimo de 2,3% da população. Ou seja, houve uma redução importante, mas ainda é preciso fazer um grande trabalho - diz o professor Pedro Israel de Lira, do Departamento de Nutrição da UFPE e coordenador da pesquisa.

Analfabetismo chega a 57% nas áreas rurais do estado

Os resultados foram apresentados em um seminário realizado na quinta-feira em Recife e ressaltam a importância do tema às vésperas do mês de nascimento e morte do pernambucano Josué de Castro, que escreveu "Geografia da Fome" há 62 anos.

Para o professor Malaquias Batista, uma das maiores autoridades em nutrição do país, a melhoria deve-se, entre outros fatores, aos programas sociais implantados pelo governo, como o Bolsa Família. O estudo mostrou que houve redução de anemia em 33% da população e 30% das mulheres adultas. Entre as crianças com menos de 1 ano, no entanto, os índices ainda preocupam.

Por outro lado, 50% dos adultos enfrentam problemas de obesidade, que chega a 89% das mulheres com mais de 50 anos. Com a obesidade, aumentaram riscos de doenças como hipertensão (28% da população), colesterol (36%), triglicerídios (19%). Além disso, 16% dos pesquisados apresentaram diabete, enquanto em 1997 esse percentual não passava de 4%.

- Estamos vivendo um ciclo de fome oculta. As pessoas engordam, mas sem incorporar vitaminas e sais minerais - diz Rejane Barros, da Secretaria de Saúde de Pernambuco.

Apesar da melhora nos índices de nutrição, os números mostram que as dificuldades ainda são grandes no estado. À exceção da energia elétrica, que chega a 99% da população pesquisada, o estudo mostrou que só 50% tinham acesso a esgoto. A água tratada não chegava a 20%. O analfabetismo atinge 25% dos maiores de 20 anos no estado e, no meio rural, chega a 57%.

A pesquisa foi realizada em 1.311 domicílios de 18 municípios. Ao todo, foram pesquisadas 5.381 pessoas.