Título: Dízimo eleitoral
Autor: Vasconcellos, Fábio ; Menezes, Maiá
Fonte: O Globo, 31/08/2008, O país, p. 3

Crivella, que declarou doações só de pessoas físicas, em 2006 usou estrutura da Universal

Fábio Vasconcellos e Maiá Menezes

Convidada para trabalhar na campanha eleitoral de Marcelo Crivella (PRB), então candidato ao governo do Estado em 2006, a moradora de São Gonçalo Márcia da Silva Eufrhazio afirma ter ganhado R$90 por semana para distribuir panfletos. O dinheiro, que ajudou a garantir a comida na mesa para os seis filhos que dividem com ela um casebre de dois cômodos no bairro Paraíso, não consta na prestação de contas de Crivella como despesa. Integrante do grupo de evangelização da Igreja Universal, Márcia diz que recebeu o dinheiro "da mão do bispo". Curiosamente, a moradora aparece nas contas de Crivella como doadora de R$140. O valor, na verdade, é apenas uma "estimativa" para aqueles que prestaram serviço voluntário e que devem ser identificados na receita e na despesa da prestação de contas, como prevê a legislação eleitoral.

Em 2006, a campanha de Crivella teve 179 casos de doações de pessoas físicas com valores estimados de R$140. Este ano, como em 2006, a maior parte das receitas do candidato do PRB, que agora disputa a prefeitura do Rio, é novamente de doações individuais, segundo a primeira parcial divulgada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Assim como os adversários Eduardo Paes (PMDB), Jandira Feghali (PCdoB) e Solange Amaral (DEM), ele divulgou quanto arrecadou e gastou, mas não informou quem foram os doadores - o que a lei permite. Por isso O GLOBO pesquisou os doadores de 2006 dos três candidatos que lideram as pesquisas agora - no caso de Crivella, o modelo parece ser o mesmo, com a maioria dos doadores pessoas físicas.

O caso da moradora de São Gonçalo mostra o grau de proximidade do candidato Crivella com a Universal, apesar de o senador agora tentar dissociar sua imagem da igreja. A análise da prestação de contas de 2006 do candidato, aprovada pelo TSE, demonstra que integrantes da Universal participaram ativamente com doações em dinheiro ou até mesmo arregimentando seguidores para trabalhar voluntariamente na campanha.

- Na época da campanha, o pastor reuniu os obreiros e os grupos e perguntou: quem quer trabalhar com Crivella na eleição? Ele vai pagar a vocês toda semana. Como tenho crianças, estou parada e desempregada, não tenho marido, eu falei: eu quero, sim. Ele colocou o nome da gente. E eu recebia, na época, R$90 da mão do bispo - lembra Márcia, que este ano, ainda sem entender que a campanha eleitoral de Crivella é apenas no Rio, esperou pelo convite para distribuir panfletos pelas ruas de São Gonçalo.

Pagamento sem registro nas contas

Morador de São João de Meriti, Eric Bahia da Silva é freqüentemente encontrado na Igreja Universal de Nilópolis, onde, segundo familiares, ele trabalha como obreiro da igreja. O rapaz também afirma ter recebido R$90 por três semanas para fixar placas do candidato Crivella. Ele, contudo, consta apenas como doador de R$140, novamente "valor estimado".

- Apenas trabalhei fixando placas e recebi R$90 por semana - afirma Eric, que nega ser obreiro, e não revela quem pagou pelo trabalho.

Moradores do Jardim Xavante, em Belford Roxo, uma região de baixa renda na Baixada Fluminense, os irmãos Patrícia e André Luiz Morais da Silva foram cabos eleitorais de Crivella. Eles afirmam, no entanto, que não receberam dinheiro pelo serviço. Patrícia, que participa do grupo jovem da Universal, diz que "houve uma convocação" para participar da campanha:

- Como o Marcelo Crivella faz parte dos membros da nossa igreja, é nosso líder. Eu era responsável pelo grupo e fomos convocados. Não me lembro como veio o pedido, perguntando se a gente podia, e foi assim.

Identificado como mais um voluntário da campanha de Crivella, o aposentado Antonio Joaquim Coimbra, morador de Realengo, conta que apóia o candidato Crivella. Ele, que é freqüentador da Universal localizada próximo à sua casa, diz que participa da congregação há 14 anos. A mulher de Antonio, Maria Lucia Coimbra, nega que tenham participado da campanha do candidato do PRB.

- Minha ajuda foi só no voto. Somos cristãos e acreditamos na palavra do senhor. Nós acreditamos no homem de Deus - ressalta Antonio.

O aposentado Carlos Martins Carvalho, que mora numa quarto e sala no Parque São Vicente, revela que participou da campanha de Crivella porque "eles pediram para ajudar como voluntário". Assustada por constar como uma suposta doadora em dinheiro, Maria Eunice de Oliveira, há dez anos fiel da Igreja Universal no bairro de Parque Capivari, em Duque de Caxias, lembra que trabalhou como voluntária na campanha de Crivella em 2006. Ela disse ter sabido da possibilidade de trabalhar na campanha por uma amiga.

- Eu quis ajudar porque ele é da igreja - disse Maria Eunice, que ganha a vida catando sucata.

Entre os que constam da lista de doadores, há os que confirmam que fizeram a doação. É o caso de Ilma Martins Souza, moradora de Vila Rosali, também em Duque de Caxias. De frente para a linha do trem, onde ficam expostos o lixo e o esgoto não tratado, Ilma, também fiel da Igreja Universal, afirmou que doou os R$140, mas não quis dar detalhes de como a contribuição foi feita:

- É um dinheiro que faz falta. Mas doei porque acredito nas propostas dele - disse Ilma, informando apenas que descobriu como fazer a doações em "reuniões em separado".

Na lista de doadores está ainda a estudante Priscila Ferreira Vidal. Moradora de Vila Rosário, em Duque de Caxias, Priscila, segundo sua mãe, Rosângela, é fiel da Universal e trabalhou e distribuiu panfletos voluntariamente para Crivella em 2006.

Levantamento feito pelo GLOBO nas contas das candidaturas dos três principais candidatos à Prefeitura do Rio, relativas a 2006, demonstra o perfil de arrecadação das campanha de Crivella, e dos ex-deputados Eduardo Paes e Jandira Feghali. O candidato do PRB, que registrou, em 2006, 63,7% de contribuições de pessoas físicas, repete a estratégia este ano: 100% dos R$167 mil arrecadados para a campanha à Prefeitura até agora são de contribuições individuais. Outros R$20 mil foram obtidos pelo PRB.