Título: CPI do Grampo convoca Jobim, Paulo Lacerda e Luiz Fernando Corrêa
Autor: Franco, Bernardo Mello; Alencastro, Catarina
Fonte: O Globo, 04/09/2008, O País, p. 4
BRASÍLIA. A CPI dos Grampos aprovou ontem a convocação do ministro da Defesa, Nelson Jobim. Ele deve depor na próxima quarta-feira sobre as suspeitas de que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) teria participado do grampo ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes. Também foram convocados a depor o diretor-geral da Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa, e o diretor-geral afastado da Abin, Paulo Lacerda, que já havia prestado depoimento à comissão.
Os deputados querem saber se Jobim confirma a informação, divulgada pelo deputado Raul Jungmann (PPS-PE), de que ele teria avisado o presidente Lula sobre a suposta compra, pela Abin, de equipamentos capazes de fazer escutas ilegais. Esse teria sido o fator determinante para a decisão de Lula de afastar Paulo Lacerda, que nega envolvimento no caso.
A CPI também aprovou a quebra de sigilo das operações Chacal e Satiagraha da Polícia Federal. Na primeira ação, a PF investigou o suposto envolvimento da empresa Kroll em espionagens que teriam alcançado até o presidente Lula. O pedido de dados da Satiagraha será enviado ao juiz Fausto de Sanctis, da 6ª Vara Criminal da Justiça Federal de São Paulo, que já depôs à CPI. No último dia 18, o ministro do STF Cezar Peluso negou o acesso da CPI a dados da Operação Chacal. Autor do requerimento aprovado ontem, Nelson Pellegrino disse não haver desobediência à decisão da Corte, já que o pedido estaria tecnicamente embasado.
O requerimento para a convocação de Jobim foi apresentado em conjunto pelo presidente da CPI, Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), e pelo relator, Nelson Pellegrino (PT-BA). O pedido foi aprovado sem discussão por votação simbólica.
Comportamento de Jobim irrita PT e Planalto
O comportamento de Jobim é alvo de irritação em setores do PT e entre alguns assessores do Planalto. A avaliação de petistas com trânsito no Planalto é de que o ministro foi quem forçou e pressionou para o afastamento de Lacerda da direção da Abin. Segundo eles, ainda não havia a certeza de que o grampo partira da Abin, mas a insistência de Jobim, com argumentos, foi determinante. Tanto nas reuniões com ministros do STF como com a coordenação política de governo, Jobim disse que "esse modelo da Abin entrou em colapso" e que a saída de Lacerda era essencial.
Ontem, ao participar de cerimônia no Superior Tribunal de Justiça (STJ), Jobim disse a ex-colegas do STF, que presidiu, que a ordem no governo é apurar o caso até o final. Mas ponderou que é muito difícil rastrear o autor do grampo. Isso contrasta com as declarações do ministro da Justiça, Tarso Genro, que diz que a PF tem todas as condições de afirmar "se o grampo saiu da Abin ou não".
A oposição resolveu se unir e aumentou o tom das críticas para pressionar o governo a demitir os suspeitos de envolvimento no grampo ilegal, inclusive o general Félix. PSDB, DEM e PPS, que afirmam em nota que o país vive "situação de grave crise institucional", pediram também a demissão definitiva da cúpula da Abin, afastada temporariamente por Lula. A oposição quer ainda criar uma CPI específica para apurar o episódio envolvendo Gilmar Mendes, e que o Ministério Público participe das investigações da Polícia Federal sobre o grampo ilegal que gravou conversa de Gilmar com o senador Demóstenes Torres.
- Ele (Félix) tinha que estar fora - disse o líder tucano na Câmara, José Aníbal (SP).