Título: O pacto Brasil-União Européia :: Hugues Goisbault
Autor: GOISBAULT, HUGUES
Fonte: O Globo, 04/09/2008, Opinião, p. 7
A União Européia reúne hoje - 50 anos após a sua criação - 27 democracias européias e 495 milhões de cidadãos. Muitas pessoas ao redor do mundo se perguntam como funciona a UE, que é hoje um modelo de integração política e econômica, e qual é o conteúdo de sua ação externa. Os próprios europeus muitas vezes acham que ela possui mecanismos institucionais muito complexos e por vezes severos. Sua trajetória de desafios e conquistas, no entanto, é seu retrato mais fiel.
Após as duas grandes guerras mundiais, os europeus sonhavam com a reconciliação. O pontapé inicial para a criação de um bloco europeu foi dado em 1951, com a assinatura do Tratado de Paris entre seis países: França, Itália, Alemanha, Bélgica, Luxemburgo e Países Baixos. Os mesmos países assinaram seis anos mais tarde, em 1957, o Tratado de Roma, instituindo a Comunidade Econômica Européia (CEE), que é o primeiro ancestral da União Européia. As cinco ampliações pelas quais passou fizeram com que a UE saísse de 6 estados membros para 27.
Hoje, a União Européia é o primeiro bloco comercial do mundo, detém a segunda moeda mundial, o euro, e tem como objetivo maior assegurar a paz, a prosperidade e a liberdade para os seus cidadãos, em um mundo mais justo e mais seguro. Mas a UE é bem mais do que isso: representa uma identidade européia capaz de integrar tradições e culturas distintas com políticas comuns em diversas áreas como meio ambiente e pesquisa, por exemplo. Ela também é de longe o primeiro doador internacional, destinando mensalmente cerca de três bilhões de euros a projetos de assistência nos cinco continentes. A ação humanitária, a ajuda ao desenvolvimento e a promoção dos direitos humanos e da democracia são as prioridades de sua ação externa.
A França assumiu em 1º de julho a presidência do conselho da União Européia até 31 de dezembro, certa de que a evolução das instituições européias deve ter prosseguimento para responder às exigências de uma Europa ampliada e às expectativas concretas dos cidadãos dos 27 países membros.
Nesse contexto, o Tratado de Lisboa é um instrumento para que seja dado mais poder e mais voz ao Parlamento europeu, uma das três instâncias do processo de decisão dentro da UE ao lado da Comissão Européia e do Conselho. Na prática, a UE pretende se aproximar das expectativas de seus cidadãos tornando-se mais eficaz, mais transparente e mais rápida em suas decisões. Dezenove dos vinte e sete países membros da UE já ratificaram o Tratado de Lisboa. Agora, após o "não" irlandês, o Conselho Europeu de 20 de junho de 2008 decidiu rediscutir o Tratado no mês de outubro, uma prova de que o processo democrático está bem vivo na Europa.
A Europa do futuro é a Europa que se constrói através de conquistas diárias. A construção européia é um modelo de real solidariedade entre Estados independentes. Precisamos mostrar que a Europa possui uma capacidade de reação rápida frente aos desafios econômicos e sociais deste início de século XXI. Estreitar os laços já existentes e incrementar a parceria com as grandes nações do mundo é uma das prioridades da UE. Neste cenário, o Brasil ocupa um lugar de destaque. Prova disso é a vinda, em dezembro, do presidente da França e do Conselho da União Européia, Nicolas Sarkozy, ao Brasil, onde participará do Encontro UE-Brasil. Juntos, Lula e Sarkozy irão selar uma ampla parceria estratégica atestando a grande importância dos laços de amizade entre a UE e o Brasil.