Título: Banco Central desacelera o ritmo de fortalecimento de reservas cambiais
Autor: Duarte, Patrícia
Fonte: O Globo, 08/09/2008, Economia, p. 17
BC compra menos dólar, mas já tem mais de US$205 bi contra solavancos
Patrícia Duarte
BRASÍLIA. Nos últimos meses, o Banco Central (BC) diminuiu consideravelmente seu apetite por incrementar as reservas internacionais do país, movimento que teve bastante destaque de dois anos para cá. Entre janeiro e agosto passados, por exemplo, foram comprados cerca de US$25 bilhões, quase 70% a menos do que os US$75 bilhões incorporados em igual período de 2007. Analistas acreditam que, apesar dos sinais de desaceleração, a autoridade monetária ainda está longe de encerrar de vez sua política de fortalecimento das reservas, porque quer continuar sinalizando que o Brasil tem, e quer manter, um importante colchão para suportar possíveis solavancos.
Hoje, as reservas estão um pouco acima de US$205 bilhões, montante suficiente para tornar o país credor externo, ou seja, para pagar toda a dívida externa. Diretores do BC, como Mário Tóros (Política Monetária) e Alexandre Tombini (Normas), em conversas com o mercado, têm deixado claro que não existe a vontade de mudar a política das reservas, usando muito mais argumentos qualitativos do que quantitativos. Defendem que, com esse colchão, o Brasil mostra à comunidade internacional que tem forças para enfrentar crises e musculatura suficiente para honrar seus compromissos.
Custo é alto para carregar as reservas
Exemplo recorrente é a atual crise hipotecária nos EUA, pela qual o Brasil passou com poucos arranhões. Isso, diz o BC, não é mensurável, em resposta aos críticos dos custos de manutenção de uma reserva elevada. Só no semestre passado, o BC registrou prejuízo de R$44 bilhões para carregar as reservas, uma vez que a desvalorização cambial as afeta em cheio.
Balança comercial deverá ter saldo muito menor este ano
A autoridade monetária também reduziu suas ações de fortalecimento das reservas internacionais de olho nas transações correntes, que são as operações feitas pelo país com o exterior. Entram aí balança comercial, pagamento de juros e remessas de lucros e dividendos. Depois de passar os últimos cinco anos no azul, essa conta deve fechar 2008 com déficit de US$21 bilhões, segundo projeções do próprio BC. Entre janeiro e julho, o saldo negativo já está em US$19,512 bilhões. Isso significa que a liquidez de dólares no país está muito limitada.
O economista-chefe do Unibanco, Marcelo Salomon, concorda com o raciocínio e diz que a desaceleração do BC neste momento, comprando menos reservas, vem da liquidez menor de divisas no mercado brasileiro, sobretudo com a balança comercial, que deverá ter saldo muito menor neste ano. De modo geral, o mercado calcula que o saldo comercial ficará na faixa de US$20 bilhões em 2008, metade do resultado visto no ano passado, que chegou a US$45 bilhões.
O economista-chefe do West LB no Brasil, Roberto Padovani, observa que as ações do BC no mercado, comprando dólares para as reservas, servem também para "suavizar" as oscilações no câmbio. O BC não admite publicamente, mas suas intervenções no mercado - ao comprar ou vender dólares - também servem para balizar as cotações.
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