Título: Crise pressiona inflação e reduz crescimento
Autor: Bôas, Bruno Villas; Batista, Henrique Gomes
Fonte: O Globo, 10/09/2008, Economia, p. 27

AMEAÇA GLOBAL: Para Mantega, valorização do real chegou ao limite e queda das "commodities" aliviará preços

Economistas prevêem expansão abaixo de 4% do país em 2009 e novas altas de juros com dólar mais caro

Bruno Villas Bôas, Henrique Gomes Batista e Gustavo Paul

RIO e BRASÍLIA. Com a fuga de investidores estrangeiros, o dólar comercial disparou ontem para R$1,772 - uma alta de 2,13% - e analistas temem que a moeda americana gere inflação no país, resultado do encarecimento de produtos importados. Eles temem ainda que essa pressão inflacionária seja um novo motivo para o Banco Central (BC) manter o ritmo de alta dos juros e provoque uma desaceleração maior na economia.

Para o ex-presidente do BC Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas (FGV), a alta do dólar pode levar a uma inflação de custos.

- O que está acontecendo é o oposto do que alguns analistas esperavam: que o real se valorizasse de forma permanente ao ponto de derreter - avalia o economista.

Segundo Langoni, a economia brasileira segue uma tendência de desaceleração e deve crescer abaixo de 4% em 2009. Neste ano, o economista projeta alta de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, resultado que considera positivo frente à expectativa de alta de 3% da economia global.

Dólar mais alto beneficia exportador apenas em 2009

Para o economista Reinaldo Gonçalves, professor titular da UFRJ, a elevação do dólar e suas conseqüências sobre a inflação podem ser uma "desculpa" para o BC manter a trajetória de alta na taxa básica de juros. Ele aponta que a alta da moeda americana pode, por outro lado, ajudar as exportações brasileiras.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou ontem que é impossível definir qual será o novo parâmetro da cotação do dólar, que deve continuar a se valorizar em relação ao real. Segundo ele, essa tendência se intensificará nos próximos meses, mas isso poderá ser benéfico para a economia brasileira, por ser um fator de estímulo às exportações.

- Nós chegamos ao limite da valorização do real - disse Mantega, durante o seminário que comemora os 200 anos do Ministério da Fazenda.

O ministro lembrou que este atual momento de valorização cambial é decorrente tanto da apreciação do dólar em todo o mundo, em razão da maior confiança dos agentes financeiros no mercado mundial, como da piora das contas externas brasileiras, que estão registrando neste ano um forte déficit em transações correntes.

Para Mantega, a elevação na cotação do dólar, entretanto, não deverá ter impactos inflacionários no Brasil. Segundo ele, ao mesmo tempo está ocorrendo uma desvalorização no preço das commodities mundiais, ou seja, de produtos básicos que contam com cotação mundial, como soja, trigo, aço e petróleo. Este grupo de produtos foi o responsável pelo repique inflacionário mundial do fim do ano passado e do início deste ano, ao sofrer fortes elevações de preços.

- Uma coisa compensa a outra, há uma neutralização dessa elevação (do dólar). Muito pelo contrário, tivemos um IGP-DI com deflação até, então podemos dormir tranqüilos do ponto de vista da inflação - afirmou o ministro, que depois se corrigiu: - Quer dizer, tranqüilos não, sempre com um olho aberto.

Mantega disse que a baixa cotação mundial desses produtos - que representam grande parte das exportações brasileiras - vai gerar novos desafios ao comércio exterior do país. Ele disse que a elevação dos preços das commodities representou grande parte do crescimento das exportações brasileiras.

Pacote americano não muda tendência do câmbio

O vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, afirma que as empresas exportadoras devem sentir um efeito positivo com o aumento da taxa de câmbio apenas no ano que vem.

- Com o dólar a R$1,77, o benefício é significativo para os exportadores de produtos manufaturados, que representam 35% do total das exportações. Já no caso das commodities, a taxa de câmbio vai definir a rentabilidade, ou seja, quanto mais ou menos reais serão recebidos - diz Castro.

Embora aponte um caminho para tirar a economia americana da crise, o pacote de ajuda às gigantes hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac, anunciado no fim de semana pelo governo americano, não muda o cenário de fuga de aplicações financeiras e a tendências de alta da cotação do dólar, avaliam economistas.

Segundo o coordenador de Regimes Monetários e Cambiais do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Salvador Werneck, os saques de aplicações financeiras feitas no país superaram os ingressos em US$17,336 bilhões entre abril e agosto deste ano.

O economista da USP Simão Davi Silber concorda que o pacote de socorro não é suficiente para resgatar o apetite por risco dos investidores. O economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, da FGV, faz avaliação semelhante. Para ele, embora as autoridades americanas tenham dado sinais de que não medirão esforços para impedir que a crise se transforme em uma grande depressão, os investidores precisam de tempo para digerir as perdas.

COLABOROU Erica Ribeiro