Título: Forte dependência do gás boliviano gera tensão
Autor: Oliveira, Eliane
Fonte: O Globo, 11/09/2008, O Mundo, p. 36

Forte dependência do gás boliviano gera tensão

Mais de 70% da energia consumida pelas indústrias paulistas provêm do combustível. Rio também pode sofrer

Eliane Oliveira

BRASÍLIA. O pânico que se instalou no governo brasileiro, em decorrência da suspensão de 13% do gás natural fornecido diariamente pela Bolívia ao Brasil, tem como justificativa a forte dependência do setor produtivo do país. Segundo especialistas, mais de 70% da energia consumida pelas indústrias paulistas vêm do gás. No Sul, há locais, como Porto Alegre, em que a dependência chega a 100%.

Para a especialista em energia Daniela Santos, a redução atingirá as indústrias, poupando, pelo menos por enquanto, os consumidores residenciais. Os setores de cerâmica, vidros, alimentos e bebidas devem ser atingidos.

¿ A preocupação não vem de agora. Começou no momento em que o presidente Evo Morales anunciou a nacionalização das reservas de petróleo e gás. Mas o que foi feito ainda é insuficiente ¿ disse ela.

Não existe saída a curto prazo. Um caminho seria importar o gás em estado líquido, processo que levaria de 15 a 20 dias, prazo que coincide com o tempo previsto para o conserto do equipamento danificado na Bolívia que causou a suspensão parcial do fornecimento ao Brasil.

¿ O gás não é como o petróleo, que pode ser trazido de várias formas. Estamos submetidos à situação política e social da Bolívia ¿ afirmou ela.

Autor do livro ¿Bolívia, Brasil e a guerra do gás¿, o professor de relações internacionais da Trevisan Escola de Negócios José Alexandre Hage destacou que as indústrias fluminenses também serão prejudicadas se a crise se agravar. O nível de dependência, afirmou, é de 50%.

¿ O abastecimento de gás boliviano já está no gargalo, e a situação só deve melhorar em 2012 ¿ alertou Hage.

O consumo de gás natural no Brasil em 2008 é de 60 milhões de metros cúbicos/dia, em média. Deste total, 29 milhões são produzidos no país e 31 milhões de metros cúbicos são importados da Bolívia.