Título: Há um ciclo de aperto monetário no mundo
Autor: Duarte, Patrícia
Fonte: O Globo, 13/09/2008, Economia, p. 35

Diretor de Normas do BC, Tombini atribui parte da alta de tarifas bancárias à atual crise da economia mundial

A conjuntura econômica mundial adversa explica, em parte, o aumento dos preços de serviços bancários que ficaram de fora das novas regras implantadas no fim de abril, para padronização de tarifas. O diagnóstico é do diretor de Normas do Banco Central (BC), Alexandre Tombini. Ele encabeça a ala desenvolvimentista do BC, que defende aperto monetário menor, e é um cotados para uma possível substituição do presidente da instituição, Henrique Meirelles.

Patrícia Duarte

Qual o balanço que o BC faz desses quatro meses de vigência das novas regras?

ALEXANDRE TOMBINI: Antes do regime, em junho de 2007, tínhamos receitas de tarifas bancárias da ordem de R$20 bilhões. De julho de 2007 a junho de 2008, essas receitas são de R$21 bilhões (no semestre). Estão relativamente estáveis. Nesse mesmo período, o número de contas correntes aumentou de 107 milhões para 113 milhões. Outro indicador é o saldo das operações de crédito, que saiu, em junho de 2007, de R$750 bilhões para mais de R$1 trilhão. Ou seja, o peso relativo de tarifas nesse período cai.

Mas estamos vendo aumento na receita obtida com tarifas.

TOMBINI: Após aquele "cucuruto" (referindo-se ao aumento de tarifas feito pelos bancos antes da vigência plena do novo regime) do começo do ano, as receitas estão lineares. Basicamente, você tira administração de fundos de investimentos, que não é tarifa, administração de loterias, de corretagem e outros.

Isso significa o quê?

TOMBINI: Isso significa que, pré e pós-regime, houve redução no peso relativo das tarifas nas receitas totais dos bancos, nas despesas administrativas. Essa participação relativa caiu por quê? Porque aumenta a quantidade de operações de crédito e de correntistas.

Algumas entidades voltadas para o consumidor denunciaram que haveria aumentos de tarifas fora do previsto.

TOMBINI: O que houve, na média, é que as tarifas estão caindo. O peso relativo das tarifas, antes e depois, é menor do que antes. Os órgãos de defesa do consumidor estão no papel de identificar instituições específicas.

E houve já alguma denúncia ao BC de não-cumprimento das regras?

TOMBINI: O que eu sei é que o número está estabilizado, como sempre esteve.

Esse nível de reclamação estável é um indicador de que o sistema está funcionando?

TOMBINI: O regime demonstra que a concorrência está funcionando e tem ajustado os preços, na média, para baixo. Desde abril, a média de reclamações sobre tarifas ficou estável em 400 por mês.

Quando será possível o BC fazer uma avaliação para o consumidor saber como as regras estão sendo seguidas?

TOMBINI: O consumidor tem as informações. Estão disponíveis todas as tarifas praticadas por todas as instituições. Não precisa o BC fazer essas avaliações. Aumentar e diminuir uma tarifa faz parte do jogo, desde que dentro das regras.

No trimestre passado, os bancos compensaram as receitas menores com tarifas com mais ganhos em outros serviços, como taxa de administração de fundos. Era isso o que o BC esperava?

TOMBINI: O mundo mudou muito nos últimos seis, 12 meses. Os prêmios de risco das economias no mundo variaram, os spreads (diferença entre o custo de captação e a taxa efetivamente cobrada ao consumidor final) das operações se ampliaram. Estamos no meio de um ciclo de aperto das condições monetárias aqui e em outros países.

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