Título: Bolívia: militares rejeitam ajuda de Chávez
Autor: Galhardo, Ricardo
Fonte: O Globo, 13/09/2008, O Mundo, p. 42
SANTA CRUZ DE LA SIERRA. Um canal de diálogo se abriu ontem à noite na Bolívia, com o presidente Evo Morales se reunindo com o governador de Tarija, Mario Cossío, que foi a La Paz representando os departamentos opositores. Num firme comunicado, as Forças Armadas deixaram claro que não aceitarão a intromissão de tropas estrangeiras em território boliviano, rejeitando a oferta do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, feito na véspera em caso de tentativa de golpe contra Morales. Os militares advertiram também que não permitirão mais enfrentamentos no país, que já resultaram em 14 mortes em Pando - onde foi decretado estado de sítio à noite.
O comandante-em-chefe das Forças Armadas, o general Luis Trigo, afirmou que os militares defenderão a independência e a unidade do país, e não permitirão que estrangeiros violem a soberania nacional.
- Ao senhor presidente Chávez e à comunidade internacional, dizemos que as Forças Armadas rejeitam enfaticamente intromissões externas de qualquer índole, venham de onde venham - afirmou Trigo, acrescentando: - Não vamos tolerar mais a ação de grupos radicais e violentos.
Militares tomam as ruas de Cobija, em Pando
A Bolívia amanheceu de luto pelas mortes em Pando, num enfrentamento na véspera entre camponeses e opositores. O número de mortos foi elevado para 14, após mais seis cadáveres serem encontrados, mas ainda há desaparecidos. O governo classificou as mortes de massacre e denunciou a presença de "assassinos brasileiros e peruanos contratados pelo governo local". A violência levou Morales a declarar à noite estado de sítio em Pando, com militares tomando as ruas da capital, Cobija.
Em La Paz, Morales se reunia com o governador de Tarija, que representava também Pando, Santa Cruz e Beni. Segundo Cossío, essa podia ser a última chance de diálogo. Por sua vez, o líder autonomista crucenho Branko Marinkovic pediu numa carta ao secretário-geral Ban Ki-moon que a ONU ajude a pacificar o país.
Como se não bastasse o medo de saques e confrontos, a população de Santa Cruz, departamento mais rico da Bolívia, passou a enfrentar ontem filas e desabastecimento. Mulheres e crianças carregando botijões de gás era uma cena comum. Em alguns postos de gasolina, as filas chegavam a dois quilômetros. Nas prateleiras dos supermercados produtos como frutas e frios já faltam. A ameaça de desabastecimento provocou aumento nos preços, o que irrita parte da população. Santa Cruz de la Sierra, capital do departamento e epicentro do movimento autonomista, está ilhada desde o início da semana por bloqueios promovidos por manifestantes aliados ao governo.
- Os políticos brigam e nós, que não temos nada com isso, sofremos as consequências. O preço do botijão subiu 30% da noite para o dia. Isso porque somos um dos maiores produtores de gás da América - reclamou a dona de casa Malvina Quiñones.
Brasileiros em Santa Cruz preocupados com situação
Muitos comerciantes têm fechado as portas com medo de saques. Na madrugada de ontem, diversos estabelecimentos comerciais foram saqueados. No mercado popular La Ramada, os donos das barracas formaram uma milícia armada.
- Nos primeiros dias parecia que os unionistas estavam apenas tomando os prédios públicos. Agora virou bagunça. Tem gente que se faz passar por unionista só para roubar - disse por trás da grade de seu açougue Javier Lozada.
O clima era tenso. Imagens de tanques em Oruro, provavelmente em direção a Santa Cruz, foram exibidas na TV fazendo com que os autonomistas ampliassem a mobilização. Plan 3.000, baluarte dos partidários de Morales, também se preparava para o enfrentamento. O medo também chegou aos brasileiros que vivem em Santa Cruz, grande parte deles universitários. Cerca de 200 pessoas procuraram o consulado brasileiro. A maioria queria informações sobre um possível plano de saída de emergência se a situação se agravar.
- Por enquanto está tranqüilo. Mas o que vai acontecer se o governo enviar tropas? - indagou José Roberto de Carvalho.
A ONU, a OEA e a União Européia se ofereceram para colaborar na busca de uma solução.
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