Título: São Paulo faz 4 vezes mais grampos que Rio
Autor: Franco, Bernardo Mello; Suwwan, Leila
Fonte: O Globo, 14/09/2008, O País, p. 18
Governos dos estados dizem que traficantes são os principais alvos; RJ monitorou 3.471 telefones em 15 meses
BRASÍLIA. A polícia de São Paulo faz quatro vezes mais escutas telefônicas autorizadas pela Justiça do que a do Rio. A diferença aparece no cruzamento de informações prestadas pelas Secretarias de Segurança Pública dos dois estados à CPI do Grampo na Câmara. A polícia paulista fez 14.227 interceptações com autorização judicial, entre janeiro de 2007 e março de 2008. No mesmo período, os órgãos de inteligência do Rio monitoraram 3.471 linhas telefônicas, segundo documento assinado pelo secretário José Mariano Beltrame. Em ambos os estados, o tráfico é apontado como o principal alvo dos grampos legais.
Rio tem maleta de intercepção telefônica
No momento em que as informações foram enviadas à CPI, a polícia de São Paulo monitorava 1.232 telefones. Já o governo fluminense mantinha sob vigilância 264 linhas. Para cada escuta legal feita no Rio, o governo paulista grampeou, em média, 4,6 telefones com aval da Justiça. A distância entre os números é superior à diferença de população dos dois estados. Segundo o IBGE, São Paulo tem 2,6 habitantes para cada morador do Rio.
A dianteira paulista no uso de escutas poder ser ainda mais folgada, já que o governo do Rio fechou seu relatório um mês depois do estado vizinho. O levantamento de São Paulo vai até 3 de março, e o do Rio inclui grampos feitos até 31 de março. As informações foram enviadas à CPI entre março e abril.
O ofício encaminhado por Beltrame aponta a existência, no Rio, de escutas da Polícia Militar. Das 264 linhas telefônicas que estavam sob monitoramento, quatro eram interceptadas pela PM. Por lei, a corporação só pode usar o recurso em inquéritos que investigam crimes da PMs. Em São Paulo, todas as interceptações relatadas à CPI eram feitas pela Polícia Civil.
Nos dois estados, as conversas gravadas pelos órgãos de inteligência são armazenadas por computadores ligados ao sistema Guardião, também adotado pela Polícia Federal. O programa transcreve e cruza as falas interceptadas para produzir relatórios.
A polícia do Rio tem uma maleta de interceptação telefônica, que dispensa a participação das empresas de telefonia nas escutas. Isso permitiria grampear celulares sem autorização judicial. A Secretaria de Segurança do estado disse ao GLOBO, por e-mail, que não usa o aparelho para fazer escutas. A maleta custou R$671 mil e faz parte do legado do Pan, deixado pelo governo Federal. O governo paulista disse que não tem maletas.