Título: Riscos para o pré-sal
Autor: Batista, Henrique Gomes; Paul, Gustavo
Fonte: O Globo, 14/09/2008, Economia, p. 31
Brasil precisa de portos ampliados, navios e plataformas para explorar petróleo.
Enquanto a Petrobras anunciava, na semana passada, o potencial de até 4 bilhões de barris de petróleo e gás na área de Iara, um dos nove megacampos do pré-sal já conhecidos, os setores portuário e naval do país se movimentavam para tentar atender à demanda que emergirá nos próximos anos. Todos agora correm contra o tempo para enfrentar a falta de portos, navios e plataformas capazes de atender a esse novo mercado. Portos de Rio, São Paulo e Espírito Santo iniciam planejamento para tentar oferecer terminais que possam servir de base às operações das empresas. Projetos como o de São Sebastião (SP), que precisa de US$3 bilhões, atraem a atenção de investidores estrangeiros.
Em jogo, além de toda a operação portuária, estão as mais de duas centenas de embarcações que vão entrar no mercado brasileiro nos próximos anos e serão a coluna vertebral da exploração. Estudo do BNDES aponta que, até 2042, serão necessárias mais 138 plataformas, num ritmo de seis novas ao ano, a partir de 2020. Uma plataforma custa em média US$1,7 bilhão.
A Secretaria Especial de Portos acredita que, inicialmente, a operação do pré-sal deverá afetar os portos de Vitória, Niterói, Rio, Angra dos Reis, São Sebastião e Santos. O órgão abriu licitação internacional para contratar projeto estratégico para os portos para 30 anos, com o objetivo de medir corretamente as necessidades do país. Antes do pré-sal, o governo estimava a necessidade de investir US$15 bilhões no setor nos próximos dez anos.
De olho nessa movimentação, a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) iniciou um estudo para disciplinar o setor. Algum porto poderá ser escolhido para centralizar as operações, o que requer forte planejamento:
- A exploração do pré-sal vai ter forte impacto no setor portuário de toda essa região, que já tem grandes portos e enfrenta dificuldades ambientais para novos terminais - afirmou o presidente da Antaq, Fernando Fialho.
Melhoria no Porto de Angra de olho na Bacia de Santos
A Companhia Docas do Rio, que já destina o Porto de Niterói às atividades da indústria do petróleo, está adaptando o Porto de Angra para atender à Bacia de Santos. Segundo seu presidente, Jorge Luiz de Mello, ali funciona um terminal de carga geral, mas há dificuldades de acesso terrestre, o que eleva custos:
- Para a indústria de suprimento do setor de petróleo, porém, ele apresenta grandes vantagens logísticas - diz Mello, que quer aumentar a profundidade do porto de 8,5 para dez metros, necessários para atender aos novos navios.
Enquanto discute mudanças no Porto de Angra, o Rio pode estar perdendo terreno. O presidente da estatal paulista Companhia Docas de São Sebastião, Frederico Bussinger, que controla o porto da cidade, define o tom da disputa:
- Vai ser aberta uma corrida, mas nós estamos na pole position.
Segundo ele, o porto tem vantagens, por já sediar a operação offshore do campo de Mexilhão -- ela seria em Angra, mas a Petrobras mudou o projeto para o litoral norte paulista --, além de ter operações da Petrobras desde os anos 60 e boas condições naturais, como calado de 25 metros. A escolha do porto é estratégica, diz, e o governo paulista já percebeu isso:
- Estamos no meio da área do pré-sal. Até 2012, o porto e a infra-estrutura da região, inclusive de estradas, receberão US$3 bilhões.
Os licenciamentos ambientais para essas obras já foram pedidos. Haverá um heliporto para dar infra-estrutura a plataformas que surgirão com o pré-sal. A expansão do porto e da logística é um dos 15 projetos selecionados para uma feira mundial de investidores, em Cingapura.
O Espírito Santo também corre contra o tempo. O secretário de Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Guilherme Dias, lembra que a Petrobras anunciou a construção de um terminal de apoio em Anchieta, no Sul do estado, para dar suporte às plataformas da região e tentar transformar a cidade em uma Macaé capixaba. Dias diz que há possibilidades para todos com o crescimento do setor petrolífero:
- Não há uma concorrência deletéria entre estados. Tem espaço para muitos projetos, pois o desafio do setor de petróleo é muito grande.
Dias se refere também à necessidade de construir estaleiros pelo país. Em agosto, o governo capixaba assinou protocolo de intenções com a Jurong do Brasil para implantar estaleiro no município de Aracruz, orçado em R$500 milhões e destinado a construir plataformas e ao reparo naval. Já a Companhia Docas do Rio aprovou a abertura de uma área no Porto de Itaguaí para construção de estaleiros.
Além disso, essa nova frente deve gerar impactos na indústria naval, na formação de profissionais do setor. Hoje, os 26 estaleiros de médio e grande portes do país atendem à demanda de novas embarcações, mas o presidente do Sindicato Nacional da Indústria Naval (Sinaval), Ariovaldo Rocha, admite que ela vai aumentar exponencialmente, porque o Brasil pode ser um pólo de produção para todo o Atlântico Sul. Isso inclui países produtores, como Angola e Nigéria, cuja produção deve crescer 153% até 2030 - o maior salto do mundo.
O pré-sal afetará ainda estados distantes das reservas. Os estaleiros gaúchos e do Nordeste também estão se preparando para tentar atender à nova demanda por navios.
PETROBRAS VOLTA A SER AFAGADA PELO GOVERNO LULA, na página 32