Título: Crise crônica desafia governo
Autor: Menezes, Maiá
Fonte: O Globo, 14/09/2008, O Mundo, p. 38
BUENOS AIRES. Evo Morales assumiu a Presidência prometendo pôr fim à desigualdade social. Mas seus poderosos opositores sentiram-se ameaçados e, desde o início, deixaram claro que não estavam dispostos a abrir mão dos benefícios conquistados nas últimas décadas. Para analistas, o eixo do problema boliviano é justamente a dificuldade de se construir um projeto de país que inclua todos os setores da sociedade.
¿ O principal elemento que rege a política e a vida social de um país é a Constituição e a Bolívia não tem uma Constituição que inclua todos os bolivianos ¿ explicou o ex-chanceler e professor da Universidade Católica Javier Murillo de La Rocha. ¿ A Constituição de 1967 (atualmente em vigência) não é a mais adequada. Mas a que o governo pretende implementar também não é, porque representa uma visão de país que não reconhece as autonomias departamentais ¿ disse Murillo de La Rocha.
Para o professor boliviano, a decisão do governo Morales de não atender às demandas de autonomia dos departamentos da Meia Lua levou seus opositores a aprovarem estatutos autonômicos que não são reconhecidos pelo governo central.
¿ Eu diria que a atual Constituição favorece mais a unidade dos bolivianos do que o projeto do MAS ¿ diz.
Para Roger Cortez Hurtado, professor da Universidade Maior de San Andrés, ¿o principal problema é a falta de acordos. Outros presidentes, que venceram eleições com menos de 30% dos votos (Morales teve 54%), conseguiram mais acordos pois estavam mais dispostos a dialogar¿.
¿ O governo Morales tem um projeto de país, mas esse projeto não tem consenso porque não é aceito por uma porção expressiva de nossa população. Essa resistência é o que está provocando tanta violência ¿ assegurou o analista boliviano.
Para aliados do governo, a briga pela autonomia é, no fundo, uma fachada para uma disputa pelo poder econômico. Colaboradores do presidente argumentam que o principal objetivo da oposição é preservar um sistema econômico desigual, que condena a grande maioria dos bolivianos a condições de extrema pobreza.
¿ Existem muitos elementos em jogo, muitos interesses políticos e econômicos. Muitas pessoas são contra o governo porque, genuinamente, defendem as autonomias. Outros estão numa queda-de-braço pessoal com o governo, porque não querem perder benefícios econômicos. Mas seja pela razão que for, a realidade é que um acordo entre Morales e seus opositores parece cada vez mais distante ¿ lamentou Hurtado.