Título: Cuba pede aos EUA suspensão de embargo
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Fonte: O Globo, 17/09/2008, O Mundo, p. 36
Havana quer 6 meses para comprar produtos americanos, após Gustav e Ike causarem maior devastação na história do país
HAVANA. O governo cubano pediu aos Estados Unidos que suspendam por seis meses o embargo imposto ao país há mais de 40 anos, para que lide com os danos causados pelos furacões Ike e Gustav, que combinados causaram os maiores estragos por tempestades da história cubana. Os furacões - que atingiram o país num espaço de dez dias - causaram US$5 bilhões em prejuízo, afetando 450 mil casas e arrasando a colheita inteira de cana-de-açúcar.
Em nota no jornal "Granma", o governo cubano agradeceu a ajuda oferecida, dizendo que o país não pode aceitar doação de um governo que o bloqueia. Mas Havana ressaltou que está disposta a comprar materiais indispensáveis de empresas americanas e solicitou ainda que o Washington permita a bancos e instituições privadas e oficiais que concedam a Cuba créditos em operações comerciais para financiar as compras.
"Se o governo dos EUA não deseja fazê-lo definitivamente, Cuba solicita que ao menos o autorize durante os próximos seis meses", afirma a nota. O governo americano havia oferecido ajuda inicial de US$100 mil, podendo chegar a US$5 milhões.
Washington tem dito que não pretende mudar sua política de embargo, mas que fornecerá ajuda a ONGs que auxiliem os cubanos. Brasil, Venezuela, Espanha e Rússia já enviaram aviões com ajuda humanitária.
Gustav atingiu Cuba em 30 de agosto. Uma semana depois foi a vez de Ike. Juntos, deixaram sete mortos. Pelo menos 200 mil pessoas perderam suas casas e outras centenas de milhares necessitam de abrigos temporários. Analistas dizem que o impacto das tempestades criará obstáculos para que o presidente Raúl Castro cumpra a promessa de melhorar as condições de vida na ilha.
"A ação combinada dos furacões Gustav e Ike a convertem na mais devastadora na história destes fenômenos meteorológicos em Cuba em relação à magnitude dos danos materiais", diz o "Granma".
Segundo o balanço preliminar, dos 700 mil hectares destinados à cana-de-açúcar, 156 mil foram arrasados e 519 mil estão alagados. Terão que ser reprocessadas 40 mil toneladas de cana molhadas. Pelo menos 115 engenhos foram danificados.
Também foram atingidos 10 mil hectares de plantações de banana, arroz e feijão. Perderam-se mais de 4 mil toneladas de alimentos em armazéns, e foram danificadas 800 toneladas de folhas de tabaco, usadas na fabricação de charutos. Praticamente todo o país ficou às escuras.
País aceita iniciar diálogo com a União Européia
A partir de hoje, o governo vai receber pedidos de interessados na entrega de terras ociosas em usufruto a agricultores como medida de emergência para a produção de alimentos e para reduzir a dependência das importações. Os interessados, privados ou em cooperativas, obterão até 40 hectares.
Cuba aceitou iniciar o diálogo com a União Européia, o que inclui a discussão sobre direitos humanos. Segundo Havana, embora questionamentos sobre o sistema político sejam inaceitáveis, o levantamento em junho das sanções deram condições para iniciar o diálogo. Fontes consideraram positiva a resposta cubana, após recordar que a reação de Fidel Castro ao levantamento das sanções foi chamar a decisão de hipócrita.