Título: O FRANKENSTEIN DE HENRY PAULSON
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Fonte: O Globo, 18/09/2008, Economia, p. 24
É assim que um socorro federal funciona hoje. O governo compra 79,90% da empresa em questão. Não pode ser mais que isso, porque se passar do número mágico de 80%, a dívida da empresa entra no balanço do governo federal. Ficar em 79,90% permite ao governo manter a ficção de que não é responsável pela solvência da empresa.
Enquanto isso, o necessário financiamento da dívida é colocado em um patamar politicamente adequado. A dívida não pode ser muito elevada frente ao capital da empresa resgatada, porque pode causar mais turbulência ou irritar compradores estrangeiros. Ela precisa ficar no ponto certo, como mingau.
Então, é preciso trocar a diretoria; afinal, foram eles que fizeram a bagunça. (Fica melhor se o governo levar uma facada na luta contra o risco moral ao tirar dos executivos o pacote de indenização.)
Os detalhes do socorro da seguradora American International Group (AIG) ainda estão vindo à tona, mas já está claro que segue essas linhas ¿ como os resgates de Fannie Mae e Freddie Mac.
Haverá um empréstimo de US$85 bilhões, e o governo ficará com uma participação ¿ ou garantia ¿ de 79,90%.
É difícil explicar como entramos de novo nessa bagunça tão depressa. É certamente uma lição sobre a necessidade de confiança no mercado para sobreviver, os perigos de quedas precipitadas nos preços das ações e o estranho papel que as agências de classificação ainda têm.
Mais uma vez, surge a vaga noção de ¿grande demais para quebrar¿. Basicamente, a AIG estava interconectada demais ¿ e seu colapso veio muito rápido ¿ para que a deixassem quebrar. Tomo isso como verdade porque todo mundo está dizendo.
Mas o problema agora para o secretário do Tesouro, Henry Paulson, e sua equipe é que eles não podem voltar atrás. Quando tudo falha e aparece uma empresa ¿grande demais para quebrar¿, o setor privado agora sabe que pode recuar e deixar o fardo nos ombros do governo.
Foi o que aconteceu com a AIG: Goldman Sachs e outras firmas de Wall Street não puderam ou não quiseram alinhavar um pacote de empréstimo. A AIG tem ativos suficientes para garantir um empréstimo. O problema é que esses ativos não são líquidos.
Paulson e cia. estão numa posição difícil. Eles podem deixar todos os Lehmans do mundo ¿ os que não quebraram rápido o suficiente ou deram o azar de ser pequenos ¿ afundarem, mas não podem permitir isso com empresas como a AIG. E depois de Bear, Fannie, e Freddie, o setor privado também sabe disso.
As financeiras privadas estão deixando seu bom vizinho fazer a limpeza, e não ajudam porque sabem que ele vai fazer isso de qualquer maneira.
Temo que estejamos criando um Frankenstein. Fannie Mae e Freddie Mac serão usadas no próximo ano e meio para acomodar a crise imobiliária. Os bancos meio-pesados estão comendo os menores, criando mais instituições grandes-demais-para-quebrar. Na corrida par garantir mais liquidez, o Fed está assumindo manobras arriscadas, como aceitar em garantia ativos de risco, incluindo ações e hipotecas subprime.
Tudo isso junto torna o governo federal o garantidor direto e indireto de todo o sistema financeiro e de seus investimentos. E ainda há o problema de o governo estar dirigindo Fannie, Freddie e AIG.
Henry Paulson pode agora comandar a economia dos EUA, mas, para nosso bem, eu espero que ele tome logo medidas para enxugar essas instituições. Senão, corremos o risco de ser o gato que engoliu seu rabo e desapareceu.