Título: Queda em 'commodities' prejudica o Brasil
Autor: Bôas, Bruno Villas
Fonte: O Globo, 18/09/2008, Economia, p. 28
ABALO GLOBAL: Exportações encolheriam 6,6%. Soja, café e milho estão entre os produtos que baixaram
AEB prevê saldo comercial negativo em US$3 bi já em 2009 por causa de recuo dos preços de mercadorias
Bruno Villas Bôas
Com a piora da crise americana e o temor que a maior economia do mundo caminhe para uma recessão, os preços das commodities no mercado internacional entraram em forte trajetória de queda a partir de agosto deste ano e devem empurrar a balança comercial brasileira - que tem 65% de sua pauta formada por produtos primários - para baixo. Segundo cálculos da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), a balança caminha para um déficit de aproximadamente US$3 bilhões já no próximo ano - o primeiro saldo negativo anual desde 2000, quando foi negativo em US$384 milhões.
O cenário da associação considera que o país exportará US$184 bilhões no próximo ano, uma queda 6,6% na comparação aos US$197 bilhões projetados para 2008. Já as importações tendem a crescer, segundo a AEB, para cerca de US$187 bilhões, uma alta de 7,5% na comparação aos US$174 bilhões estimados para 2008.
"Commodities" caíram 11,5% desde 1º de agosto
Para o vice-presidente da AEB, José Augusto de Castro, a projeção pode ser considerada conservadora, já que trabalha com as atuais cotações das commodities, que tendem a cair ainda mais nos próximos meses. Ele lembra ainda que a associação trabalhou com um volume de exportações em 2009 igual ao estimado para este ano, embora a tendência seja de queda nos embarques no próximo ano.
- As economias dos EUA, do Japão e da Europa caminham para uma forte desaceleração ou recessão no próximo ano. Elas vão demandar menos commodities. Neste cenário, o Brasil tende a exportar menos em volume e a preços menores - explica Castro, para quem a valorização do dólar dificilmente deverá compensar as outras perdas.
A balança comercial apresentou saldo de US$40,039 bilhões no ano passado, queda de 13% frente ao saldo de US$46,007 bilhões de 2006. Para 2008, a projeção da AEB é de saldo comercial de US$23 bilhões.
Para Castro, a queda registrada nos preços das commodities de agosto até agora ainda não reflete a desaceleração da economia mundial. Castro diz acreditar que a baixa de preços tem origem na liquidação de posições nos mercados de futuros, após uma bolha especulativa que transformou contratos de commodities em ativos financeiros. Desta forma, os preços no mercado internacional registraram queda acumulada de 11,5% de 1º de agosto deste ano até ontem, de acordo com o índice Research Bureau (CRB), que lista preços das principais bolsas.
Segundo dados da AEB, algumas commodities fundamentais da pauta de exportação brasileira tiveram significativa queda no período. É o caso da soja e do óleo de soja, que representam, juntos, quase 8% do total das exportações brasileiras, em valores. A soja caiu de US$432 a tonelada - preço médio entre janeiro e julho deste ano - para US$413 ontem, baixa de 4,39%. Já o óleo de soja recuou, na mesma comparação, de US$1.147 para US$961, uma desvalorização de 16,21%. As quedas também foram sentidas em outros produtos, como milho (8,33%), café (16,61%), alumínio bruto (8,35%) e catodos de níquel (27,64%).
Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, explica que o déficit comercial prejudicaria o nível das reservas em moeda estrangeira, necessárias para pagamento de dívidas e de produtos importados. Ele lembra, no entanto, que o país tem outras fontes de captação de dólares, como a compra direta do Tesouro. Para Agostini, o déficit comercial é esperado, mas deve ocorrer apenas em 2010.