Título: Juros inflados
Autor: Frisch, Felipe
Fonte: O Globo, 25/09/2009, Economia, p. 21

Mercado triplica aposta em taxa maior em 2010 com risco de inflação e eleição

A expectativa de um crescimento econômico do país superior a 5% no ano que vem e o temor de uma inflação acima da meta por causa dessa recuperação e das incertezas eleitorais estão ajudando a inflar o que parece ser uma bolha no mercado de juros futuros. Somente este mês, pelos contratos futuros negociados na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), a taxa de juros projetada para janeiro de 2011 (os contratos mais negociados) saiu de 9,68% para 10,23% ao ano entre o dia 1º de setembro e ontem. Essa instabilidade tem triplicado o número de negócios com os contratos para essa data, que saíram de cerca de 632 por dia no começo do mês para mais de 1.700 na última terça-feira.

Os contratos de juros futuros negociados na BM&F projetam a taxa básica de juros (Selic, hoje em 8,75% ao ano) média dos 12 meses anteriores ao seu vencimento. Portanto, ainda que a taxa de juros de 10,23% ao ano represente apenas cerca de um ponto percentual acima da Selic projetada pelos analistas para o fim de 2010, de 9,25% ao ano ¿ segundo o relatório Focus, do próprio Banco Central (BC) ¿, na prática significa que os juros podem até voltar aos 13,75% ao ano ao longo de 2010, segundo as projeções do mercado.

¿ Essa taxa de 10,23% em janeiro de 2011 significa que o BC já teria de começar a subir os juros em abril de 2010, subindo um ponto a cada reunião, chegando a Selic a 12,75% ao ano em outubro e permanecendo assim até o fim do ano ¿ diz o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves.

Ele discorda dessa visão dos investidores que estão puxando as taxas para cima na BM&F. Para Gonçalves, a probabilidade de a inflação ultrapassar 5% ao ano só aumenta para 2011, caso o país cresça 5% tanto em 2010 quanto no ano seguinte.

¿ Concordo que o crescimento vai ser forte, mas, se não tivermos problema de financiamento e os dólares continuarem entrando no país, com a cotação em torno de R$ 1,80, vamos poder importar o que quisermos, exceto serviços. Será preciso haver uma pressão descomunal no setor de serviços para fazer a inflação passar de 5% ¿ diz o economista.

Para ele, o risco de os juros futuros permanecerem elevados na BM&F poderá forçar o próprio BC a subir a Selic já no fim do primeiro trimestre de 2010, para evitar o risco de contágio nos preços.

Pressão de gastos também preocupa

Um risco adicional é o do quadro eleitoral. Além do natural aumento de gastos do governo em anos de eleição, o jogo sucessório para 2010 está muito indefinido. Analistas interpretam que o crescimento das candidaturas de José Serra (PSDBSP) e Ciro Gomes (PSB-CE) pode levar a um tom mais desenvolvimentista na campanha, em defesa de juros mais baixos e real menos valorizado, a fim de incentivar a produção (um dólar muito barato prejudica exportações e ameaça empregos).

¿ Não tem uma cartilha, um pensamento claro. Mas há uma combinação de heterodoxia com traços nacionalistas ¿ avalia Gilberto Braga, professor de Finanças do IbmecRJ, que também considera haver um excesso do mercado na elevação dos juros futuros.

Se o BC sentir que a especulação em torno da sucessão começa a pressionar a inflação, pode subir preventivamente os juros ainda em 2010 para manter o custo de vida sob controle, dizem analistas.

O gestor de renda fixa da Global Equity, Octavio Vaz, avalia que o receio da volta da inflação e da alta da Selic aumenta quando são divulgadas previsões como a do JPMorgan de ontem. O banco revisou sua projeção de crescimento para o Brasil para 5% em 2010.

¿ Se crescermos acima de 5%, certamente vamos ter uma pressão inflacionária ¿ diz.

O economista da Modal Asset, Thomás Goulart, lembra que há incertezas também sobre o futuro comando do Banco Central. Se Henrique Meirelles deixar a presidência, quem será seu substituto? ¿ Não acho que haja exagero (nesse temor sobre quem vai comandar o BC). Os investidores estão certos em pedir um prêmio de risco.

Há uma percepção generalizada de que a economia brasileira vai crescer mais fortemente ano que vem, já há quem fale em 6%. O BC tem que se antecipar a qualquer movimento que gere inflação ¿ diz Goulart.

As apostas no mercado futuro de juros põem em risco o investidor hoje? Em parte. Nesse mercado atuam tesourarias de bancos, mas também fundos de investimentos.

Se os bancos apostarem errado na BM&F, o investidor corre o risco de ter perdas nas suas cotas, lembram especialistas. Além disso, o comportamento dos juros futuros é decisivo para ajudar a definir o custo do crédito nos próximos meses.

Ontem, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) fechou em queda de 0,74%, aos 60.046 pontos. Já o dólar avançou 0,95%, para R$ 1,805.

Tanto a Bovespa quanto as bolsas americanas chegaram a operar em alta no início do pregão, com o anúncio de que os novos pedidos de seguro-desemprego nos EUA recuaram em 21 mil na semana passada, para 530 mil, menor patamar desde julho. No entanto, as bolsas passaram a cair depois da divulgação de que a venda de casas usadas nos Estados Unidos caiu 2,7% em agosto.

Em Nova York, o Dow Jones perdeu 0,42%, o Nasdaq cedeu 1,12% e o S&P, 0,95%.