Título: Pittsburgh firma G-20 como novo fórum global
Autor: Scofeild Jr., Gilberto
Fonte: O Globo, 25/09/2009, Economia, p. 25

Secretário do Tesouro americano diz que países estão "muito perto" de acordo sobre limite de bônus a executivos

PITTSBURGH e NOVA YORK. O documento que deverá ser divulgado hoje ao fim da reunião do G-20 ¿ grupo que reúne as principais economias do mundo ¿ transforma a instituição no principal fórum de discussões sobre a nova arquitetura econômica mundial, uma das mais antigas reivindicações do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. De acordo com o rascunho do documento, que circulava ontem em Pittsburgh, os países concordam em discutir desequilíbrios macroeconômicos atuais e riscos futuros de forma sistemática em reuniões do G-20, com a supervisão técnica do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Segundo o assessor internacional da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, as reuniões do G-20 passam a ser anuais, e esta pode ser considerada uma das maiores vitórias dos países emergentes. Afinal, o G-20 começou como uma reunião de ministros da Fazenda e presidentes de bancos centrais ainda em 1999 ¿ a primeira reunião de presidentes ocorreu em Washington, em novembro do ano passado. Até então, o G-8 (grupo dos sete países mais ricos e a Rússia) era considerado o grande fórum de discussões, mas a crise financeira global trouxe o G-20 à mesa.

¿ Acho positiva essa institucionalização do G-20, ou seja, a compreensão de que as grandes decisões globais não podem ser tomadas sem a presença dos países emergentes ¿ disse Garcia.

A agenda sobre o crescimento sustentável foi posta no centro das discussões do G-20 pelo país anfitrião, os Estados Unidos, com apoio do Reino Unido.

Mas ambos queriam que os eventuais desequilíbrios macroeconômicos mundias ¿ excesso de déficit e dívida pública nos EUA, economia exportadora e baixo consumo interno, como na China e no Japão ¿ fossem supervisionados pelo FMI, ideia combatida pelos emergentes e alguns europeus, principais defensores do G-20.

Lula: `Espero que a gente saia com decisões importantes¿ Europeus e emergentes também pressionaram para que o documento incluísse medidas sobre regulação do mercado financeiro. No rascunho, discutido até o fim da tarde de ontem pelos delegados reunidos no Centro de Convenções David Lawrence, o G-20 decidiu seguir as recomendações do Comitê de Estabilidade Financeira ¿ ligado ao BIS, o banco central dos bancos centrais ¿ e recomendar limites para a ampliação do capital próprio e uma maior supervisão dos grandes bancos.

Mas o documento pode ser alterado na reunião de presidentes de hoje, caso EUA e Reino Unido, que têm os maiores mercados financeiros do mundo, insistam em reduzir a amplitude das regras. O porta-voz do governo americano, Robert Gibbs, negou que os EUA queiram enfraquecer a regulamentação: ¿ É nosso interesse que a crise atual não se repita.

Até ontem, não havia consenso sobre o estabelecimento de limites para a remuneração de executivos e a criação de um organismo internacional para supervisionar o sistema financeiro global. Mas o secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner, disse à imprensa que o G-20 estava ¿muito perto¿ de fechar um acordo sobre os bônus e ressaltou que é preciso que as medidas entrem em vigor ¿até o fim deste ano¿.

Em Nova York, Lula disse que ia para o G-20 com a preocupação de garantir mudanças: ¿ Espero que a gente saia com decisões importantes para dar tranquilidade ao mundo, de que não apenas a crise diminuiu como de que ela não vai voltar ¿ afirmou, ressaltando temer o conformismo.

¿ Há uma tendência de as pessoas se acomodarem. O médico dá o remédio para tomar 14 dias, você toma um dia, parou a dor, você pára de tomar o remédio, depois a dor volta. É preciso seguir as orientações médicas, e neste caso é preciso seguir as orientações politicas corretamente.

Protestos: `Não há esperança no capitalismo¿ Enquanto os negociadores se reuniam, manifestantes e polícia se enfrentavam nas ruas de Pittsburgh. Uma marcha reuniu cerca de duas mil pessoas, levando cartazes como ¿Não há esperança no capitalismo¿, ¿G20 antipovo¿ e ¿Gangue dos 20¿.

A polícia tentou dispersá-las com alto-falantes e sirenes, mas elas reagiram atirando pedras e latas de lixo. Os policiais revidaram com gás de pimenta.

¿ Vimos policiais usarem balas de borracha, cassetetes e gás ¿ disse Noah Williams, porta-voz do Projeto Resistência Pittsburgh G-20.

No início da noite, cerca de 300 pessoas ainda enfrentavam a polícia nas ruas. Vitrines de lanchonetes da rede KFC e de uma concessionária BMW foram quebradas. Não foi divulgado o número de prisões. Hoje haverá mais protestos.

Formam o G-20 África do Sul, Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, Coreia do Sul, EUA, França, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Reino Unido, Rússia, Turquia e União Europeia (UE).

COLABOROU Marília Martins, com agências internacionais