Título: BC prevê mais inflação com alta de gasto público
Autor: Duarte, Patrícia
Fonte: O Globo, 26/09/2009, Economia, p. 29
Banco Central alerta que corte de despesas será complexo. Projeção é de IPCA a 4,2% este ano e 4,4% em 2010
BRASÍLIA. O Banco Central (BC) piorou suas projeções de inflação para 2009 e 2010, ao mesmo tempo em que manteve sua projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos no país) em 0,8% neste ano. Em seu Relatório Trimestral de Inflação, divulgado ontem, a autoridade monetária mostra preocupação com as contas públicas daqui para frente. Para o BC, ainda há indicadores que pressionam os preços, como os estímulos monetários já dados para evitar uma queda mais abrupta na atividade econômica com o agravamento da crise internacional, em setembro do ano passado, e a volta do crédito.
No documento, a autoridade monetária diz que "o desempenho das contas públicas reflete, também, a tendência de expansão nos gastos, que deverá ser mais moderada, ainda que possa ser de complexa reversão no futuro." Segundo o diretor de Política Monetária do BC, Mário Mesquita, uma das dificuldades de inverter algumas ações diz respeito aos aumentos de salários dos servidores públicos. Ele destacou ainda o peso das ações sociais do governo nos últimos anos, que contribuíram para sustentar o consumo no decorrer do primeiro semestre de 2009.
Para 2009, num cenário de referência - ou seja, com Selic constante a 8,75% ao ano e dólar a R$1,85 -, o BC espera inflação de 4,2%, 0,1 ponto a mais do que a previsão de junho, mas ainda abaixo do centro da meta do governo, de 4,5% pelo IPCA. Para 2010, as contas passaram de 3,9% para 4,4%, e deixam claro que a inflação voltará a crescer a partir do terceiro trimestre do próximo ano. Mesmo assim, o BC manteve a projeção de crescimento do PIB em 0,8%, muito próximo do que espera o governo (1%).
- Estamos muitos confortáveis com esse patamar - afirmou Mesquita.
Para analistas, juro não sobe antes do 2º semestre de 2010
Segundo o BC, a massa salarial cresceu 4,4% nos seis primeiros meses deste ano, enquanto a massa salarial ampliada - que soma os gastos sociais, como Bolsa Família e benefícios previdenciários - apresentou uma expansão de 5,3% no período. Mesquita afirmou que essas ações, inclusive as acertadas antes do acirramento da crise, serviram para segurar uma queda econômica mais acentuada.
- Mas a reversão dessas políticas, a médio prazo, cabe ao governo decidir e à sociedade, manifestar-se - afirmou o diretor.
Apesar da piora nos indicadores de inflação, os especialistas ainda não acreditam que o BC terá de aumentar juros antes do que é esperado até agora, a partir do segundo semestre de 2010.
- As estimativas de inflação estão em torno do centro da meta. Tem muita gente bastante otimista com a recuperação econômica, mas é preciso ver se vai ser tudo isso mesmo - afirmou o economista-chefe da corretora Concórdia, Elson Teles, para quem a Selic - hoje em 8,75% ao ano - só volta a subir no fim de 2010, fechando o período a 9,25%.
Desemprego chegará a piso histórico em dezembro, diz BC
No relatório, o BC deixa claro que o segundo trimestre reflete, "de maneira clara", a rápida recuperação da economia brasileira. E destaca o papel da demanda interna como a força motriz desse movimento.
O BC previu ainda que a taxa de desemprego no país chegará em dezembro com seu menor nível histórico, puxada sobretudo pela recuperação da indústria. De acordo com Mesquita, essa taxa fechará o ano a 6,7%, abaixo dos 6,8% registrados um ano antes e atual recorde da série histórica, iniciada em 2002.
Segundo o diretor, trata-se de um indicador de que a crise internacional perdeu força e o país está dando sinais consistentes de recuperação. Para ele, o desemprego cairá, porque a indústria está se recuperando e voltando a concentrar. O setor de serviços também tem um papel importante, ainda mais que, mesmo com a crise, continuou mostrando crescimentos, apesar de menores.