Título: ONU só condena cerco à embaixada
Autor: Martins, Marília
Fonte: O Globo, 26/09/2009, O Mundo, p. 33

Conselho de Segurança, no entanto, não prevê sanções e joga questão política para OEA

Numa reunião de menos de uma hora, o Conselho de Segurança da ONU condenou ontem as ações intimidatórias do governo interino de Honduras contra a embaixada brasileira, pediu tranquilidade às partes em conflito e recomendou que qualquer questão política seja tratada no âmbito da Organização dos Estados Americanos (OEA). Mas a declaração não teve o tom de advertência política como esperava o Brasil. A reunião foi ainda antecedida por um bate-boca entre o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, e a embaixadora americana na ONU, Susan Rice.

Mesmo assim, Amorim disse estar satisfeito com o encontro e esperar que uma declaração do conselho, aprovada por unanimidade, possa conter atos de violência como os denunciados ontem por Manuel Zelaya. O presidente deposto de Honduras disse que policiais jogaram bombas de gás na embaixada a ponto de deixar "o ar difícil de respirar".

- Fiquei muito satisfeito com a declaração do conselho, que repudiou as ações intimidatórias contra a nossa embaixada e exigiu respeito à integridade da representação diplomática e das pessoas que lá se encontram - avaliou o ministro.

A declaração adotou um tom de alerta sobre direitos humanos e prerrogativas garantidas pela Convenção de Viena quanto à inviolabilidade de representações diplomáticas. O conselho decidiu fazer uma declaração de princípios, e não uma resolução que previsse qualquer sanção ou ameaça.

Tom ríspido e troca de farpas

O encontro começou com um clima tenso e foi antecedido por um bate-boca entre Amorim e Susan Rice. O chanceler entrou na sala do conselho para ler a carta brasileira, denunciando violência e intimidação aos hóspedes da representação brasileira em Tegucigalpa. Depois de ler o documento, ele conversou rapidamente com Susan Rice, num tom ríspido. A conversa foi entreouvida pelos os jornalistas que estavam na sala de imprensa.

- Este não é o lugar para este tipo de representação - disse Susan.

- Não vou debater questões teóricas aqui com você, mas se fosse a embaixada americana, você estaria realmente irritada - rebateu Amorim.

- Ainda assim não haveria comentários - retorquiu Susan.

- Vá em frente, faça a sua declaração - finalizou Amorim.

Na saída, Susan, na condição de presidente do conselho, limitou-se a ler o texto da declaração. Disse também que não comentaria a conversa com Amorim.

- Tivemos uma conversa particular, que não estamos preparados para partilhar com vocês - disse.

Em seguida, fez questão de destacar que o foro para tratar de questões políticas seria a OEA:

- A reação do Conselho de Segurança foi expressar preocupação quanto à integridade física da embaixada, pedir calma e respeito à Convenção de Viena. Este foi o único tema que discutimos. Queremos que questões políticas sejam tratadas no âmbito da OEA e não vejo razão para termos outros encontros sobre este assunto.

Amorim declarou-se preocupado com o risco de uma invasão da embaixada, mas disse que considera um sinal positivo que o governo de Roberto Micheletti tenha afinal aceitado receber a missão da OEA, chefiada pelo secretário-geral José Miguel Insulza.

- É o começo de um diálogo. E teremos um grupo de embaixadores acompanhando o secretário-geral, inclusive o brasileiro, Ruy Casaes, que irá como observador.

Ele negou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenha pedido que o presidente do governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, seja o mediador do conflito em Honduras.

Celso Amorim pede calma a Zelaya

As informações sobre a missão eram contraditórias. Ontem, chegou a circular a notícia de que o governo interino havia adiado a chegada da delegação da OEA porque queria antes receber o presidente da Costa Rica, Óscar Arias. Mas Arias, que já mediou a negociação entre comissões hondurenhas, disse em Nova York que não viajaria a Honduras. Mais tarde, Insulza garantiu que a viagem da OEA estava mantida, mas que ainda não tinha data.

Amorim contou que tem conversado diariamente com Zelaya.

- Pedimos a ele que mantivesse a calma e que não incentivasse qualquer ato que pudesse dar pretexto para uma repressão violenta por parte do governo de fato - disse Amorim.

O ministro também foi veemente ao responder às acusações de Roberto Micheletti de que o governo brasileiro teria participado de uma trama para a volta de Zelaya a Honduras:

- Quem quer que diga que o governo brasileiro participou de um plano para levar Zelaya de volta a Tegucigalpa está mentindo. Nós soubemos da presença de Zelaya na capital de Honduras na tarde de segunda-feira, primeiro por uma deputada, depois pela mulher do presidente e em seguida autorizamos a entrada. Ele é bem-vindo, está hospedado e protegido até que seja encontrada uma solução.

Numa entrevista a uma rádio brasileira, Zelaya disse que o retorno a Honduras foi "uma decisão pessoal e consultada com o presidente Lula, o chanceler Amorim e o encarregado de negócios em Tegucigalpa".

Em Pittsburgh, Lula disse esperar que "se cumpram as decisões tomadas pelo Conselho de Segurança, incluindo o respeito à integridade da embaixada e a suspensão do cerco". O presidente chamou de "cretinice" as acusações do governo interino de que o Brasil teria sido consultado por Zelaya sobre a volta a Honduras.

- Por respeito a mim, não vou comentar a cretinice dita por um golpista. Acho triste quando ouço uma pergunta como se o Zelaya fosse o culpado e os golpistas tratados como inocentes. Golpista é golpista - disse.

COLABOROU Gilberto Scofield Jr.

Com agências internacionais