Título: Ataque misterioso com gás tóxico
Autor: Galhardo, Ricardo
Fonte: O Globo, 26/09/2009, O Mundo, p. 34
Aliados de Zelaya e funcionários brasileiros passam mal após surgimento de tubo no portão da embaixada
TEGUCIGALPA. Depois de cinco dias tomando banho de balde, tendo que racionar comida e até que dividir escova de dentes, o drama das dezenas de pessoas isoladas dentro da embaixada brasileira em Tegucigalpa ganhou um elemento a mais depois da aparição no portão de um misterioso tubo soltando fumaça. Algumas pessoas, inclusive um funcionário brasileiro, passaram mal e chegaram a sangrar pelo nariz.
O presidente deposto Manuel Zelaya afirmou ter sido vítima de um ataque tóxico com ácido cianídrico e amoníaco, citando um relatório de um especialista hondurenho. A chancelaria do governo interino e a polícia hondurenha negaram o ataque.
O encarregado de negócios da embaixada, Francisco Catunda, confirmou a aparição do tubo e chegou a enviar fotos para o Itamaraty. Segundo ele, vários seguidores de Zelaya e um funcionário da embaixada apresentaram sintomas de intoxicação como dores de garganta e mal-estar.
- Senti um cheiro estranho, três pessoas sangraram pelo nariz, inclusive um funcionário da embaixada, mas houve um certo exagero na forma como o fato foi noticiado - contou.
Alguns meios de comunicação chegaram a falar em explosivos, incêndio, água e comida envenenados e até em bomba ultrassônica. A primeira-dama Xiomara Castro disse a uma rádio local que um artefato teria sido encontrado no quintal da embaixada.
- Não foi nada disso. Enfiaram um cano de onde saía alguma fumaça. O objetivo certamente era soltar gases, mas a quantidade foi muito pequena - disse Catunda.
Uma ambulância dos Médicos Sem Fronteiras e representantes da Cruz Vermelha Internacional foram impedidos de entrar no local.
- Pode ser a comida, a água, gases. Não sabemos o que acontece lá e não nos deixam entrar - reclamou o médico de Zelaya, Marco Antonio Rosa.
O porta-voz da polícia hondurenha, Daniel Molina, classificou o suposto ataque como uma tentativa de Zelaya de chamar atenção por causa da reunião do Conselho de Segurança da ONU que discutiu a crise.
- A primeira-dama mente. Se fizéssemos uma coisa dessas estaríamos colocando em risco os vizinhos e os próprios policiais - disse Molina.
O governo interino emitiu um comunicado negando o suposto ataque e garantindo toda a segurança à representação brasileira. Segundo o documento, o Ministério da Saúde colheu amostras de ar e não encontrou sinais de material tóxico. Para Zelaya, foi uma tentativa de intimidação.
- Primeiro senti algo na boca, depois no estômago, na garganta e nos olhos. Tomei leite mas continuei sentindo um ar pesado. Querem nos atemorizar mas estamos dispostos a resistir até que se restitua a democracia em Honduras - relatou Zelaya.
Ontem de manhã, pela primeira vez desde terça-feira, milhares de manifestantes pró-Zelaya voltaram a tomar as ruas próximas à Embaixada do Brasil. Centenas de policiais e militares com fuzis e granadas acompanharam o protesto, mas não houve incidentes graves. Vários dos manifestantes estavam com camisas da Seleção Brasileira em agradecimento ao apoio a Zelaya.
- Gostaríamos de agradecer imensamente ao governo e ao povo brasileiros. Foram os únicos a se preocuparem e a chamar a atenção do mundo para o nosso pequeno país - disse o cozinheiro Roberto Pedomo.