Título: Lula na contramão
Autor: Scofield Jr., Gilberto
Fonte: O Globo, 26/09/2009, O Mundo, p. 35

Ahmadinejad não tinha por que mentir"

PITTSBURGH. O governo brasileiro não acompanhou o tom de indignação de EUA, Reino Unido e França com a revelação, ontem, de que o Irã estaria construindo uma usina secreta para enriquecimento de urânio. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pregou o diálogo com Teerã, pois a "política de isolamento não ajuda", e disse que "defende para o Irã o mesmo que para o Brasil: desenvolver energia nuclear para fins pacíficos", reiterando que tem boas relações com Teerã.

- Entre as insinuações e suposições de que existe uma usina lá, até que provem o contrário, eu vou ter em conta que o presidente Ahmadinejad não tinha por que mentir para mim - disse, afirmando ainda que o Brasil está "muito à vontade" porque é o único país cuja Constituição proíbe a fabricação de armas nucleares.

Mas, caso a denúncia se confirme, o assessor internacional da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, disse que aproveitará a visita de Ahmadinejad ao Brasil, em novembro, para pedir que reveja seus planos.

Garcia garantiu que o Brasil não se sente constrangido e manterá "a sua política de persuasão e não de encurralamento". Para o embaixador do Brasil nos EUA, Antonio Patriota, num encontro ontem antes do início da reunião de líderes do G-20, Obama convocou Lula para comunicá-lo da descoberta da usina, mas disse achar positiva a política de aproximação do Brasil com o país.

- Tomamos conhecimento dessa revelação hoje (ontem), e, caso ela se confirme, o Brasil vai se unir à comunidade internacional no protesto contra o uso de energia nuclear para fins militares no Irã - disse Garcia. - Vamos nos somar àqueles que apostam na persuasão para a resolução de conflitos, em vez do encurralamento, como já fizeram com o Paquistão e com a Coreia do Norte, sem sucesso. Essa política é tão positiva que o próprio Obama a chamou de produtiva. Confiamos na nossa capacidade de persuasão.(G.S.J.)