Título: Irã é advertido após denúncia de usina secreta
Autor: Scofield Jr., Gilberto
Fonte: O Globo, 26/09/2009, O Mundo, p. 35

EUA, Reino Unido e França ameaçam com sanções e pedem vistoria do complexo para enriquecimento de urânio à AIEA

PITTSBURGH. O presidente dos EUA, Barack Obama, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, e o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, abriram ontem o encontro do G-20 em Pittsburgh, condenando o Irã por estar há anos construindo uma instalação secreta de enriquecimento de urânio próxima à cidade santa de Qum. Os líderes acusaram o país de descumprir suas obrigações diante do Conselho de Segurança da ONU e pediram a imediata investigação da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). O Irã reagiu dizendo que a construção do complexo não era secreta, e que está aberto à inspeção da AIEA.

O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad - que durante o encontro em Nova York esta semana nada disse sobre uma nova fábrica e ainda garantiu cumprir com as suas obrigações junto à AIEA -, havia notificado a agência na segunda-feira sobre "um projeto-piloto" de construção de um nova fábrica de enriquecimento nuclear para "fins pacíficos". Mas os três líderes argumentam que Ahmadinejad só tomou essa atitude porque descobriu que as agências de inteligência ocidentais já tinham provas suficientes da existência da usina e previa que Obama, Sarkozy e Brown iriam denunciá-lo - como fizeram - na quinta-feira à noite à Presidência da AIEA em Viena.

O anúncio sobre a usina ocorreu um dia depois de o Conselho de Segurança da ONU aprovar uma resolução contra a proliferação de armas nucleares e pelo desarmamento.

- Essa instalação agrava a preocupação constante sobre o Irã se recusar a cumprir com as responsabilidades internacionais, incluindo revelar especificamente todas as suas atividades nucleares - disse Obama. - Como a comunidade internacional sabe, não é a primeira vez que o Irã esconde informações sobre seu programa nuclear.

Gordon Brown acusou o Irã de "enganador em série" e disse que a descoberta da usina vai chocar e deixar irritada a comunidade internacional:

- O Irã tem que abandonar as suas ambições militares em seu programa nuclear. E a comunidade internacional não tem outra escolha hoje a não ser traçar uma linha na areia.

Já Nicolas Sarkozy afirmou que deixar de pressionar o Irã, agora, é uma tarefa impossível:

- Nós já estamos numa séria crise de confiança. Estamos diante de um desafio para toda a comunidade internacional. Os seis (os cinco membros do Conselho de Segurança com poder de veto e a Alemanha) vão se encontrar com os representantes iranianos em Genebra (no próximo dia 1º). Tudo precisa ser posto na mesa agora. Não podemos deixar os líderes iranianos ganharem tempo enquanto os motores estão ligados. Se até dezembro não houver uma drástica mudança pelos líderes iranianos, sanções serão inevitáveis.

Obama voltou a falar do tema no encerramento do encontro, afirmando que o Irã deverá dizer "toda a verdade" na reunião da próxima semana.

- A comunidade internacional falou. Cabe ao Irã responder - afirmou, reforçando que não pretende partir para o confronto militar com o Irã. - Sempre disse que não descartamos nenhuma opção quando se trata dos interesses de segurança dos EUA, mas também enfatizo que minha linha de ação preferida é resolver isso de forma diplomática.

O presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, mostrou-se preocupado com a descoberta da nova usina, que disse violar a resolução da ONU, e instou o Irã a "fornecer provas convincentes de que busca desenvolver energia nuclear puramente com fins pacíficos" e a "cooperar" com a inspeção da AIEA e a reunião do dia 1º. A China - parceira comercial do Irã que não apoia punições a Teerã, preferindo o diálogo - também aconselhou o país a colaborar.

Ahmadinejad diz que Obama se arrependerá da denúncia

Em entrevista à revista "Time", Ahmadinejad disse que a denúncia de Obama foi um "erro", de que se arrependerá, e que o episódio se soma à "lista de temas em que os EUA devem desculpas ao Irã". Mais tarde, em coletiva, disse que atendeu à exigência de que a AIEA seja informada sobre instalações para enriquecimento de urânio com ao menos seis meses de antecedência. Segundo ele, o novo complexo só entraria em operação dentro de 18 meses:

- O que fizemos foi completamente legal. Informamos a agência. A agência virá, dará uma olhada, produzirá um relatório, e não há nada de novo.