Título: Trabalho anônimo para barrar os fichas-sujas
Autor: Braga, Isabel
Fonte: O Globo, 27/09/2009, O País, p. 10

Quem são os voluntários que conseguiram 1,3 milhão de assinaturas em projeto contra a eleição de políticos processados

DE OLHO EM 2010: `Estou nessa luta porque só acredito em mudanças se há participação popular¿, diz participante

BRASÍLIA. Moradora da Tijuca, a professora aposentada Maria Apparecida Fenizola, 78 anos, seguiu, no último ano, a rotina de se arrumar, pegar parte das fichas que imprimiu com recursos próprios e, com um sorriso no rosto, sair em busca de aliados para a luta contra a eleição dos chamados políticos fichassujas.

Maria Apparecida é uma entre as centenas de voluntários que trabalharam em todo país na coleta de assinaturas em apoio ao projeto de iniciativa popular que tenta barrar a candidatura de políticos que respondem a processo na Justiça por crimes graves ou contra a administração pública. O movimento entregará dia 29 ao presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), 1,3 milhão de assinaturas de eleitores coletadas em todo o país.

Para Maria Apparecida, qualquer local era válido para convencer um brasileiro: depois da missa, do jogo, no shopping. Com jeitinho, pedia licença e provocava ao perguntar às pessoas o que achavam de políticos com problemas na Justiça serem eleitos. Conta que dizia que era possível, sim, fazer alguma coisa contra essa prática, e explicava o projeto encampado pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), com apoio de 43 entidades da sociedade civil.

¿ Bastava falar sobre isso e conseguia várias fichas. Deus dá a cada um seus dons. O meu é o de comunicar ¿ contou.

Segundo ela, alguns demonstravam certa descrença de que a proposta pudesse sensibilizar os políticos: ¿ Quando acontecia, respondia: ¿Vai dar certo? Não sei, mas temos que lutar para que dê certo.

Não é pior ficar passivo?¿ Ela conta que está há mais de 50 anos na luta social, é vice-presidente de uma ONG e segue a doutrina social da Igreja Católica.

Atuou inclusive na coleta de assinaturas de outro projeto de iniciativa popular, hoje a Lei 9.849/99, que tipifica o crime de compra de votos. Fato comum a muitos dos voluntários da campanha Ficha Limpa. Apparecida e os voluntários do Rio conseguiram 68.007 assinaturas.

Ao 67 anos, a paulistana Carmen Cecília de Souza Amaral integra a Pastoral de Fé e Política da Arquidiocese de São Paulo. Também trabalhou na coleta de assinaturas para a lei que pune a compra de votos, uma iniciativa da Conferência Nacional de Bispo do Brasil (CNBB).

Hoje integra o comitê do MCCE/ 9849 estadual/ São Paulo, que colheu 154.995 assinaturas de apoio ao projeto contra os fichas-sujas.

Caci, como é conhecida pelos amigos, engajou-se de tal modo que transformou sua casa num QG. Só no último mês, enviou 9 mil assinaturas à campanha.

¿ Atuo porque entendo que as entidades devem oferecer oportunidades de participação popular ¿ afirma Caci, professora aposentada.

A família ajuda.

O marido, Luiz Antonio, também do movimento católico, e a nora, Renata Celani, jornalista, estão engajados.

Renata ganhou a ajuda de custo da ONG ADI (Associação para o Desenvolvimento da Intercomunicação) para divulgar a campanha, articular uma rede de pessoas e criar um blog (campanhafichalimpasp.

blogspot.com).

¿ A adesão era na hora. Alguns até discursavam, demonstrando indignação. Viam na ação uma possibilidade de participar.

Estou nessa luta porque só acredito em mudanças se há participação popular ¿ disse Renata.

Em Brasília, o servidor público José Carlos Soares Pinto, de 53 anos, não perde um evento onde há aglomerações.

Tem sempre no carro o ¿kit ficha-limpa¿: mesinha de metal, pranchetas e canetas. Empolgado, convoca a mulher, a sogra e amigos para ajudar. Não é simples: depois de convencer as pessoas é preciso ainda exigir que tenham o número do título do eleitor.

José Carlos diz que é só falar que o objetivo tentar conter a corrupção na política que as pessoas querem colaborar. Calcula que conseguiu sozinho 1,5 mil assinaturas.

Com a ajuda dos amigos, outras 25 mil. Ele também trabalhou no projeto que pune a compra de votos.

¿ Tivemos um projeto aprovado, que dá resultado, e isso anima. Sou ligado a movimento de igrejas, sou servidor público, acompanho processo político. Vejo as carências que os cidadãos têm por causa dos maus políticos que são eleitos.

A adesão era na hora. Alguns até discursavam

Renata Celani, jornalista

Temos que lutar.

Não é pior ficar passivo?

Maria Apparecida Fenizola, aposentada