Título: O preço de um lugar ao sol
Autor: Carvalho, Jailton de
Fonte: O Globo, 27/09/2009, O Mundo, p. 43

Brasil ganha papel de destaque, mas precisa se ajustar às novas responsabilidades

Numa semana em que o Brasil ocupou manchetes ao se colocar no epicentro da crise em Honduras, e em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva circulou entre os líderes do G-20, na reunião em Pittsburgh (EUA) e na abertura da Assembleia Geral da ONU, o país pareceu estar no rumo de um novo protagonismo mundial. Para especialistas em relações internacionais, o Brasil precisa acelerar mudanças na política externa para não perder a oportunidade de ascensão.

Na avaliação de estudiosos consultados pelo GLOBO, as vulnerabilidades já são evidentes e demandam mudanças pontuais, inclusive na sociedade brasileira.

¿ O Brasil não é mais um patinho feio. O protagonismo é evidente.

Juntamos o crescimento econômico dos últimos três anos à imagem do presidente Lula. Gostandose dele ou não, há de se reconhecer que ele é admirado no mundo todo. Sua imagem de ex-operário que ascendeu ao poder indica que somos uma democracia pujante e economia em ascensão¿ disse Gunter Rudzit, doutor em ciência política pela USP e professor do curso de relações internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco e Faap, ex-assessor do Ministério da Defesa no fim do governo Fernando Henrique Cardoso.

Na avaliação de Rudzit, o governo precisa fazer mudanças urgentes em sua política externa, mas certos setores da sociedade também terão de mudar rapidamente, frisando que não há liderança mundial sem ônus: ¿ Temos estruturas na nossa sociedade, como a do empresariado, por exemplo, que não estão acostumadas ao protagonismo. Estão despreparadas. Quebrar barreiras mentais é muito difícil. Mas é um desafio urgente.

O professor de ciências políticas e relações internacionais da USP João Paulo Veiga analisa que o Brasil tem ampliado seu protagonismo mundial por vários aspectos, desde as ajudas humanitárias, passando por ser player da Rodada de Doha, o papel no G-20, a descoberta do pré-sal, o caso de Honduras, mas não está pronto ainda para assumir grandes compromissos mundiais.

¿ O pior flanco que o Brasil está abrindo pode estourar na Dinamarca, em dezembro, porque não temos resolvido nossos problemas domésticos com a Amazônia: o governo fala em metas, mas não sabe sequer quanto emite ¿ disse Veiga, frisando que o tema é importante porque estará na pauta nas próximas décadas, como as guerras estiveram no século passado.

Na avaliação de Veiga, os presidentes Lula e Barack Obama, dos EUA, têm adotado estratégias opostas no cenário internacional: ¿ Eles andam na contramão.

Obama quer se concentrar cada vez mais no âmbito doméstico e gastar cada vez menos com política externa e Lula quer fazer o oposto, inclusive colocando temas domésticos, como a questão social, na projeção internacional. Essa é uma grande oportunidade.

Mas nosso ponto mais fraco é o fato de o governo não ter um DNA ambiental. E essa será a principal agenda mundial ¿ avalia Veiga.

O especialista vê também vulnerabilidade na questão da ajuda humanitária a países estrangeiros.

¿ Embora tenha sido bem-sucedido no Haiti, ficaram claras as falhas brasileiras, como a falta de interlocução com ONGs, de investimentos nas Forças Armadas. O Brasil está assumindo um protagonismo importante, mas não está pronto para desempenhar bem esse papel ¿ disse Veiga.

Rudzit também faz críticas à atuação do Brasil na condução da missão de paz da ONU no Haiti. E aponta falhas que, a seu ver, precisam ser corrigidas.

¿ É preciso não partidarizar mais a política externa. Com relação aos vizinhos, não é possível mais permitir que nos atropelem, como fez a Bolívia. Não temos que ser bonzinhos sempre. A intervenção no Haiti também é outro flanco aberto erradamente ¿ disse Rudzit.

Para o historiador do Laboratório de Estudos do Tempo Presente da UFRJ Daniel Santiago Chaves, também o pré-sal e a multilateralidade da política externa colaboraram no sentido de ampliar o protagonismo brasileiro.

Ele ressalva, no entanto, que faltam mecanismos para a ampliação da democracia nas decisões externas.

¿ Em termos de política externa e de defesa, por exemplo, ainda dispomos de um baixíssimo nível de democracia nas nossas decisões. Quer dizer, não só elegemos pouco os rumos do nosso país, e, consequentemente, avaliamos pouco as decisões dos construtores da nossa política externa, como, ainda por cima há uma grande incapacidade de alguns setores do poder em tornar explicável para a população o que se passa ¿ diz.