Título: Há risco de ruptura social
Autor: Galhardo, Ricardo
Fonte: O Globo, 27/09/2009, O Mundo, p. 44
CORPO A CORPO: CARLOS H. REYES
Candidato independente à presidência de Honduras e principal nome da esquerda nas eleições de 29 de novembro, Carlos H.
Reyes defendeu, em entrevista ao GLOBO, um boicote ao processo eleitoral caso o presidente deposto Manuel Zelaya não seja restituído ao poder. Segundo ele, participar de um processo conduzido pelos golpistas serviria apenas para legitimar uma eleição ilegal.
E diz que há risco de ruptura social.
O GLOBO: O que mudou no cenário político desde que Zelaya voltou ao país?
CARLOS H. REYES: Falta a sua restituição. O seu retorno, a princípio, assombrou os golpistas que reagiram com novos toques de recolher, um desrespeito às garantias institucionais. O diálogo iniciado pelo governo não é para restituir a democracia.
É um instrumento para forçar Zelaya a legitimar o processo eleitoral.
Como movimentos populares e a esquerda vão participar de uma eleição supostamente conduzida pelo governo golpista?
REYES:O governo golpista vai apostar em fraudes para mostrar à comunidade internacional que 50%, 55% votaram no vencedor. As eleições serão um fracasso, isso se não for um derramamento de sangue. Articulamos com a esquerda e os não golpistas do Partido Liberal que retirem seus candidatos a deputados, prefeitos e a presidente.
Em condições de ditadura o melhor é se retirar.
Vocês vão aceitar o governo eleito, caso Zelaya não seja restituído?
REYES: Não. E pode haver uma ruptura social.
Candidatos dos partidos Liberal e Nacional e setores da Igreja parecem ter mudado de posição desde a volta de Zelaya.
REYES: Eles não têm interesse na restituição. O que mais os desespera é que nossas ações são pacíficas.
O que pensa da posição do governo brasileiro?
REYES: Surpreendeu à direita hondurenha. Eles falavam inicialmente que o inimigo número um era Chávez, depois Obama, agora é Lula.
Estão perdidos porque não querem reconhecer seu erro.
As eleições são a sua única saída.
Faltam ações efetivas de órgãos internacionais?
REYES: Temos feito muito para que o golpe que derrubou Zelaya não se transforme em padrão para a América Latina, como a Guatemala nos anos 60. (RG).