Título: Brasil substitui encarregado da embaixada
Autor: Galhardo, Ricardo
Fonte: O Globo, 27/09/2009, O Mundo, p. 44
Objetivo é que Francisco Catunda descanse, mas ele deve retornar amanhã. Protestos pela volta de Zelaya continuam
HONDURAS E SEUS DOIS PRESIDENTES
TEGUCIGALPA. Após cinco dias enclausurado na embaixada brasileira em Honduras, o ministroconselheiro Francisco Catunda Resende, encarregado de negócios na representação, deixou o edifício na tarde de ontem para descansar por dois dias. Catunda foi substituído pelo também ministro-conselheiro Lineu Pupo de Paula, o segundo homem brasileiro na missão da Organização dos Estados Americanos (OEA) a Honduras, escalado pelo Itamaraty para dividir com ele as funções em Tegucigalpa. Enquanto o encarregado deixava a embaixada numa área cercada por barreiras de policiais e soldados do Exército, a poucos metros dali dois mil zelayistas protestavam aos gritos de ¿queiram ou não, Micheletti vai sair¿.
¿ O que está acontecendo aqui é um absurdo. Este hoje é o único caso do mundo de uma embaixada sitiada e isolada ¿ disse Catunda, que deve retornar ao posto amanhã e conseguiu a substituição após uma longa negociação o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Honduras, general Romeo Vásquez.
Dificuldade para controlar os 63 zelayistas
O representante disse ainda que os quatro funcionários da embaixada estão tendo dificuldades para controlar os 63 zelayistas que estão lá dentro.
¿ Tão difícil quanto enfrentar o cerco policial é controlar o Zelaya dentro da embaixada.
Lineu Pupo de Paula, da área política da OEA, deve se revezar na embaixada com Catunda: ¿ O objetivo por ora é dar um refresco para o Catunda.
Ontem, um dia após a denúncia de ataques com gás tóxico à embaixada e da declaração da ONU para que se preservasse sua integridade, permitiu-se pela primeira vez o acesso de jornalistas à rua da embaixada.
¿ Permitimos para evitar novas denúncias de que estaríamos praticando atos ilegais ¿ disse Miguel Molina, porta-voz da polícia hondurenha. ¿ Isso é para não dizerem que estamos jogando gás ou coisas parecidas na embaixada brasileira.
Com bandeiras vermelhas e de Honduras, cerca de dois mil zelayistas marcharam até a embaixada para pedir a volta de Zelaya ao poder. Alguns carregavam cartazes dizendo ¿Obrigado, Brasil¿. Os manifestantes foram acompanhados de perto por policiais de choque. Durante o protesto, os zelayistas que estão na embaixada subiram numa marquise, gritaram palavras de ordem e tocavam um berrante.
E o impasse na negociação pela volta de Zelaya ao poder continua.
Irredutível, o presidente interino, Roberto Micheletti, disse em entrevista na sexta-feira que o retorno de Zelaya ¿está totalmente descartado¿, e que as negociações até agora foram infrutíferas.
Admitindo que ¿foi um erro mandar o presidente, ou expresidente, para fora do país¿, afirmou que Zelaya só deixará a embaixada sem ser preso caso garanta asilo político fora.
¿ Não tenho nenhuma inimizade pessoal com Zelaya e não dialogarei com ele no momento, mas tenho comissões conversando com ele ¿ disse.
Catunda estava a caminho da aposentadoria
Após as denúncias de ataques com gases tóxicos, o Comitê para Defesa de Direitos Humanos de Honduras disse ontem que Zelaya passa bem, apesar de ter apresentado ¿ressecamento na garganta e dor estomacal¿.
Aos 61 anos de idade, 32 deles dedicados ao serviço diplomático, Francisco Catunda caminhava para uma aposentadoria bem planejada no eixo Fortaleza-Balneário Camboriú, ao lado da mulher, com quem é casado há 25 anos. Até que a campainha da embaixada tocou na segunda-feira.
Era a presidente do Parlamento Centro-Americano, Gloria Oquelí, com Xiomara Castro Zelaya, mulher do presidente deposto.
No carro ali em frente estava Zelaya, que pedia abrigo.
¿ Fui pego de surpresa. Em alguns momentos parecia que perderíamos o controle da situação ¿ diz ele, que assumiu a embaixada após o Brasil trazer de volta o embaixador.
Desde então sua rotina ganhou ingredientes de filme de aventura. Além de cuidar do funcionamento mínimo da representação, Catunda pôs sua capacidade administrativa à prova, criando uma área de trabalho para Zelaya, negociando a saída de pessoas e entrada de mantimentos com as autoridades hondurenhas, articulando as ações conjuntas com ONU e EUA.
Na quarta-feira, boatos davam conta da possibilidade de uma invasão à embaixada.
¿ O desgaste psicológico é muito duro ¿ disse.
Ele relata ainda as condições precárias em que vivem os funcionários e os zelayistas: ¿ Só fui tomar um banho com sabonete e toalha, na quintafeira, graças ao Sérgio Guimarães (brasileiro que comanda o Unicef em Honduras) que me trouxe uma mala com roupas.
O que está acontecendo aqui é um absurdo. Este hoje é o único caso do mundo de uma embaixada sitiada e isolada¿ Francisco Catunda Resende, encarregado da Embaixada do Brasil em Honduras