Título: Visões diferentes do Rio na imprensa dos EUA
Autor: Autran, Paula; Martins, Marília
Fonte: O Globo, 29/09/2009, Rio, p. 13

The New York Times" cita clima de festa na cidade e "The New Yorker" apresenta reportagem sobre a violência

DISPUTA OLÍMPICA: Comitê Olímpico Brasileiro já tinha feito queixa por causa de demora de revista para publicar texto

RIO e NOVA YORK. A quatro dias da escolha da cidade-sede das Olimpíadas de 2016, o Rio foi ontem retratado de forma diferente por dois dos maiores veículos de imprensa dos Estados Unidos (que tem a cidade de Chicago na disputa). Na reportagem da edição on-line do jornal ¿The New York Times¿, que recebeu como título ¿Para Brasil, Jogos Olímpicos são uma afirmação da importância global¿, a cidade saiu bem na foto: ¿Nas ruas, na boca das pessoas, no rádio e na televisão, os brasileiros não falam de outra coisa¿, diz o texto. Já a revista ¿The New Yorker¿ focou as mazelas da cidade e, em 12 páginas, não cita a disputa olímpica. A reportagem ¿Terra de gangues: quem controla as ruas do Rio de Janeiro?¿ traça um perfil aprofundado da violência no município.

No ¿New York Times¿, a reportagem, escrita por Alexei Barrionuevo, diz haver o ¿senso comum de que a cidade está pronta para explodir de alegria na sexta-feira, como no carnaval e réveillon¿. O texto destaca ainda o apoio do presidente francês Nicolas Sarkozy e a simpatia do rei Juan Carlos, da Espanha, à candidatura carioca. O repórter lembra também que o Brasil sediará a Copa do Mundo em 2014 e que o Rio foi palco dos Jogos PanAmericanos em 2007, além de ter sido escolhido a cidade mais feliz do mundo pela revista ¿Forbes¿.

Autor de reportagem sobre violência diz que ama o Rio

A reportagem da ¿New Yorker¿, de Jon Lee Anderson, aborda a violência no Rio a partir do traficante Fernando Gomes de Freitas, o Fernandinho, que é do Morro do Dendê e controla 19 das 20 favelas da Ilha do Governador (a outra está sob o poder de milicianos).

Sob a impactante foto principal, que mostra dois suspeitos de integrar uma facção criminosa detidos pela polícia na Favela de Acari, deitados no chão e sob a mira de um fuzil, está a legenda: ¿No Rio: residentes das favelas frequentemente vivem sob a autoridade de fato de gângsteres e de seu exército privado¿.

Para escrever a reportagem, Anderson esteve em várias favelas cariocas, com destaque para a Parque Royal e o Dendê, onde entrevistou Fernandinho, que estava protegido por seguranças armados de fuzis. ¿O estado está completamente ausente das favelas. As gangues de drogas impõem seus próprios sistemas de justiça, lei e ordem, e de impostos ¿ tudo pela força das armas¿, descreve o jornalista.

Ele também informa que o Rio é o primeiro no ranking das cidades do mundo em mortes por violência intencional: ¿Dizem que balas perdidas matam ou ferem pelo menos uma pessoa todo dia. Por qualquer cálculo comum, segurança pública no Rio é um desastre¿, conclui.

Anderson também escreve sobre como, no Rio, ¿as favelas se aproximam da via expressa que vai para o aeroporto e se espalham ao redor dela¿: ¿Às vezes, balas passam por cima das cabeças quando gangues rivais da cada lado da via atiram uma contra a outra¿.

A reportagem já está repercutindo no exterior: o blog do site de turismo WorldHum tem um link para fotos e comentários de Anderson. Segundo o jornalista Mauro Ventura, em seu blog no site do GLOBO, o Comitê Olímpico Brasileiro já tinha se queixado à revista, querendo saber o porquê de a reportagem, feita há quatro meses, ainda não ter sido publicada. ¿Nem o autor sabia explicar a demora. O COB temia que a matéria virasse cabo eleitoral de Chicago¿, escreveu Ventura. Mas Jon Anderson diz que lamenta a coincidência entre a data da escolha da sede das Olimpíadas e a publicação de seu texto.

Um dos mais renomados jornalistas americanos, autor de ¿Che Guevara ¿ Uma biografia¿ (Objetiva), com experiência em zonas de guerra, como Iraque e Afeganistão, Anderson esteve em Paraty em julho ¿ quando afirmou, em entrevista ao GLOBO: ¿O Rio é uma calamidade nacional¿ ¿ e informou que sua reportagem deveria ser publicada até o fim daquele mês.

Ontem, o autor explicou, em Nova York, que normalmente demora cerca de três meses para apurar e escrever uma reportagem e que esse foi também o prazo que levou para fazer o perfil das gangues do Rio. Anderson faz questão de esclarecer que ama o Rio e que acredita que a cidade tem plenas condições de hospedar atletas garantir a segurança dos Jogos Olímpicos, mas que nem por isso a disputa entre traficantes e policiais deixa de ser grave: ¿ Não gostaria que esse debate sobre a cidade a ser escolhida para os Jogos Olímpicos perturbasse um debate que é bem mais profundo, que tem a ver com o problema da desigualdade social.

Ele contou que já visitou o Rio várias vezes, sendo que na primeira vez, em 1997, quando pegou um táxi no Aeroporto Internacional Tom Jobim, atravessou a Linha Vermelha no meio de um tiroteio.

¿ A economia brasileira está num momento muito favorável, o governo vem conseguindo reduzir o problema da distribuição de renda. No entanto, parece que esses bolsões de miséria não são transformados e continuam à mercê do crime organizado.

Como isso é possível? Porque existe um nível tremendo de impunidade: 90% dos crimes ficam sem solução.

O LEITOR OPINA

¿Apesar de todos os problemas e deficiências que a cidade tem, torço pelo Rio. Será uma oportunidade única para atrairmos investimentos¿ ¿ Junior Santos, em comentário no site do Globo

¿Se queremos as Olimpíadas, devemos cobrar muito dos organizadores, pois o dinheiro é nosso. O exemplo e a repercussão é do país todo, e o Rio é de todos que moram e amam esta cidade¿ ¿ Fernando Meirelles, em comentário no site do Globo