Título: Retirar diplomatas seria covardia, diz Amorim
Autor: Galhardo, Ricardo
Fonte: O Globo, 29/09/2009, O Mundo, p. 26

Chanceler afirma que ato incentivaria outros golpes de Estado. Para Serra, receber Zelaya foi "tremenda trapalhada"

HONDURAS E SEUS DOIS PRESIDENTES

BRASÍLIA e SÃO PAULO. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou ontem que retirar os diplomatas brasileiros de Honduras e suspender o abrigo ao presidente deposto Manuel Zelaya seria uma covardia e um incentivo a novos golpes de Estado na América Latina. O chanceler reagiu com irritação ao ultimato do governo interino para que o Brasil ofereça asilo a Zelaya ou o entregue às autoridades em dez dias, e acusou o governo do país de ter dado uma bofetada na comunidade internacional ao barrar a missão da Organização dos Estados Americanos (OEA).

¿ O Brasil virou guardião de um presidente democrático e legítimo do país. Seria muito fácil para nós tirar os dois diplomatas e o oficial administrativo. O problema de segurança, do ponto de vista do Brasil, terminaria.

Mas não podemos fazer isso. Seria uma covardia, um gesto de desrespeito à democracia e um incentivo a outros golpes de Estado no continente, coisa que não podemos fazer ¿ afirmou.

Ontem, o ministro conversou por telefone com os secretáriosgerais da OEA, José Miguel Insulza, da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, e com a secretária de Estado americana, Hillary Clinton. Segundo Amorim, os principais assuntos foram o ultimato dado ao Brasil e o veto à missão da OEA.

¿ Os dois fatos são graves, porque demonstram o estado de surdez das autoridades daquele país. Não receber a missão da OEA foi uma verdadeira bofetada na comunidade internacional ¿ disse o ministro. ¿ Mesmo em casos de ruptura das relações institucionais e de guerra a inviolabilidade da missão diplomática deve ser mantida.

Garcia critica declarações dos Estados Unidos

Em Nova York, a representante do Brasil na ONU, embaixadora Maria Luiza Viotti, enviou carta à presidente do Conselho de Segurança, a americana Susan Rice, sugerindo que o órgão volte a endurecer contra o atual governo de Honduras.

O assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, disse que a reação do governo hondurenho comprova o caráter ditatorial do regime. Garcia acabou criticando a ¿ambiguidade¿ dos EUA de classificar como ¿tolo e irresponsável¿ o retorno de Zelaya a Honduras sem antes fechar um acordo e defendeu a Venezuela ¿ disse que as tentativas de envolver o presidente Hugo Chávez nos acontecimento em Honduras são uma ¿cortina de fumaça¿. Há cerca de um mês, Garcia evitou criticar a iniciativa de Chávez de fechar 34 emissoras de rádio na Venezuela e negou que fosse um ataque à liberdade de imprensa.

¿ O regime golpista suspendeu as garantias constitucionais por 45 dias e fechou a Rádio Globo de lá. São coisas que configuram completamente o que estávamos dizendo. Alguns diziam que não era, que não era uma ditadura ¿ disse Garcia à CBN.

Questionado sobre o temor de que Zelaya crie uma situação de conflagração violenta sob proteção da embaixada, Garcia disse que o Brasil tem meios para ¿controlar¿ a situação.

¿ Não temo isso. Primeiro, porque nós temos meios de controlálo. Segundo, quem conhece o presidente Zelaya sabe que isso não faz seu estilo. Ele é um homem extremamente moderado, é um homem conservador.

Ele vai seguir as orientações.

Jobim diz que existe plano para retirar brasileiros

O assessor também garantiu que a remoção de Zelaya não está em discussão.

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, afirmou ontem que uma solução extremada para a crise poderia ser a retirada de brasileiros do país, caso a crise com o país centro-americano piore.

¿ No máximo, os hondurenhos terão a lucidez de determinar a saída dos brasileiros de lá.

Não creio que Honduras venha a fazer um impedimento à saída de brasileiros ¿ disse, descartando totalmente o uso de força, mesmo se o governo local invadir a embaixada brasileira.

O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), classificou de ¿tremenda trapalhada¿ a decisão do governo brasileiro de permitir que Zelaya ficasse hospedado na embaixada.

¿ Eu acho que o Itamaraty se meteu numa trapalhada que não vai ser fácil desfazer, mas eu espero que consiga ¿ disse Serra.

O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), condenou ontem o uso político da Embaixada do Brasil em Tegucigalpa por Zelaya. Mesmo defendendo a decisão do governo brasileiro de abrigar Zelaya, Sarney externou sua preocupação com os rumos da situação.

¿ Há um certo exagero em transformar a embaixada em comitê político. Esse abuso não é bom para o Brasil e nem para Zelaya. A embaixada brasileira tem que zelar pelas leis que determinam a não intervenção nos assuntos internos dos países. O Brasil, há 200 anos, tem respeitado essa lei da soberania dos países ¿ advertiu.

Mesmo em caso de ruptura das relações e de guerra a inviolabilidade deve ser mantida Celso Amorim

Colaboraram: Henrique Gomes Batista, Adriana Vasconcelos e Cristiane Jungblut