Título: Irã desafia e testa mísseis com alcance até Israel
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Fonte: O Globo, 29/09/2009, O Mundo, p. 28
Criticado pelos EUA, exercício militar ocorre dias antes de reunião internacional para discutir programa nuclear de Teerã
TEERÃ. Num desafio à comunidade internacional três dias antes da reunião em que discutirá com o Ocidente seu programa nuclear, o Irã testou ontem mísseis de longo alcance que, segundo analistas, têm condições de atingir Israel e dezenas de bases americanas no Oriente Médio.
Os EUA, o Reino Unido e a França chamaram os testes de ¿provocação¿, e a Rússia, mostrandose preocupada, insistiu que o Irã deve permitir a inspeção da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) às instalações da nova usina de enriquecimento de urânio no país, cuja construção foi denunciada semana passada, no encontro do G-20.
Testes são ¿atitude provocativa¿, dizem EUA
As manobras começaram no domingo, dois dias depois de o presidente dos EUA, Barack Obama, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, e o primeiroministro britânico, Gordon Brown, terem anunciado a construção secreta da nova usina iraniana. Desde então, cresceu a pressão internacional sobre o controverso programa nuclear iraniano, com ameaça de novas sanções. Nesta quinta-feira, autoridades iranianas e cinco representantes do Conselho de Segurança da ONU (EUA, Reino Unido, França, Rússia e China), mais a Alemanha, vão se reunir em Genebra para discutir o programa nuclear de Teerã, que nega usá-lo para criar armas.
¿ Foram exercícios militares já programados ¿ afirmou o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, sobre os testes, acrescentando que os exercícios condizem com a ¿atitude provocativa com a qual o Irã atua no cenário mundial¿ e antecipando o que se espera do encontro na quinta-feira. ¿ Eles podem concordar com o acesso imediato e irrestrito (à nova instalação nuclear). Nunca houve um consenso internacional tão forte sobre o Irã e seu programa nuclear como há no momento.
O Ministério do Exterior iraniano afirmou que os testes foram ¿um exercício militar de natureza dissuasiva¿, sem relação com a atividade nuclear. Já o general Hossein Salami, comandante da Força Aérea da Guarda Revolucionária disse que o Irã está pronto a responder a ameaças.
¿ Todos os alvos da região, não importa onde fiquem, estarão dentro do raio desses mísseis ¿ disse o general. ¿ Todos os nossos inimigos devem saber que nos vemos num constante clima de ameaça. E nos preparamos para o pior cenário.
Segundo a emissora iraniana Press TV, o míssil Shahab 3, com capacidade para transportar ogivas nucleares e alcance de até 2.000km (o suficiente para ameaçar Israel e bases americanas no Oriente Médio, além de navios militares e petroleiros no Golfo Pérsico), foi testado de forma ¿bem-sucedida¿ no segundo dia de exercícios militares, assim como novas versões suas e de projéteis Sajjil (de longo alcance, movidos a combustível sólido).
O Shahab 3 também foi testado no Irã em julho de 2008. No domingo, lançaram-se mísseis de curto e de médio alcance.
Ontem, a França pediu que o Irã busque o caminho da cooperação, e não do confronto, interrompendo as atividades militares.
Já o secretário de Exterior britânico, David Miliband, disse que o teste é parte da ¿provocação¿ do Irã. Javier Solana, chefe de Política Externa da União Europeia, que vai liderar a delegação do Ocidente no encontro em Genebra, disse que os exercícios militares são ¿preocupantes¿. A Rússia mostrou o mesmo tom.
¿ Sem dúvida é preocupante quando os lançamentos de mísseis ocorrem tendo como pano de fundo uma situação indefinida em relação ao programa nuclear do Irã ¿ disse o ministro de Relações Exteriores do país, Sergei Lavrov. ¿ É necessário ter moderação nesta situação.