Título: Madri aplica golpe baixo
Autor: Duarte, Fernando; Magalhães, Luiz Ernesto
Fonte: O Globo, 01/10/2009, Rio, p. 12

Dirigente critica candidatura carioca, levando comitê espanhol a pedir desculpas

Durante a semana, Madri e Rio deram pistas de uma aliança estratégica na disputa pelo direito de sediar as Olimpíadas de 2016. Porém, a dois dias da votação do Comitê Olímpico Internacional (COI), a Espanha resolveu mostrar que guerra é guerra. O vice-presidente do Comitê Olímpico Espanhol e presidente da Federação Espanhola de Atletismo, José Maria Odriozola, disse, em entrevista divulgada ontem pela agência de notícias EFE, que a candidatura carioca ¿ segundo ele, baseada no sentimentalismo e no marketing ¿ é a pior entre as quatro finalistas.

Afirmou ainda que o COI não teria total confiança no projeto da cidade, sobretudo por conta da violência.

Momentos depois, a Rio 2016 enviou um protesto à Comissão de Ética do COI, a exemplo do que fizera quando o prefeito de Chicago, Richard Daley, dera opiniões sobre como a realização da Copa do Mundo de 2014 poderia prejudicar as chances cariocas.

De acordo com os estatutos do COI, representantes de candidaturas não podem fazer comentários públicos sobre as cidades concorrentes.

Em nota, a Rio 2016 repudiou as palavras de Odriozola: ¿São declarações inaceitáveis e a opinião desse senhor é o oposto do que concluiu a Comissão de Avaliação do Comitê Olímpico Internacional em seu relatório¿.

Espanhol já tinha feito elogios ao Rio

De quebra, Odriozola recebeu uma farpa do presidente da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), Roberto Gesta de Mello, que alegou ter ouvido dele opiniões bem diferentes anteriormente.

¿ Deve ser um caso de amnésia provocada pelo calor da disputa olímpica. O Odriozola esteve duas vezes no Rio, uma delas em outubro do ano passado, para o Mundial de Meia Maratona, e fez diversos elogios à cidade ¿ afirmou.

À noite, em entrevista no Hotel D¿Anglaterre, quartel-general da candidatura Madri 2016, a presidente do comitê organizador da campanha, Mercedes Coghen, pôs panos quentes e pediu desculpas ao Rio.

Mercedes se desculpou pouco antes da chegada do presidente de honra do COI, Juan Antonio Samaranch.

Ao seu lado estavam, entre outros, o prefeito de Madri, Alberto Ruiz-Gallardón.

¿ Queremos pedir desculpas ao Rio de Janeiro, se eles se sentiram incomodados com as declarações.

As quatro cidades são muito boas ¿ desconversou Mercedes.

Odriozola, que estava presente, disse não ter do que se arrepender.

¿ Eu disse o que pensava e nada mais. Por que (as declarações) seriam ofensivas? O dirigente acrescentou que suas opiniões não deveriam pesar numa futura aliança entre Rio e Madri: ¿ Se a candidatura do Rio não fosse boa, não estaria na final. Todas as candidaturas estão no mesmo nível. Apenas pediram para dizer o que penso ¿ justificou.

O governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes reagiram às críticas.

Paes foi menos diplomático: ¿ Essa é uma atitude de desespero.

Os desesperados que se expliquem.

Nós estamos cada vez mais otimistas com declarações de votos para o Rio de Janeiro.

Já Cabral disse que o episódio foi isolado, mas que a reclamação ao COI foi acertada. Ele acrescentou que não haveria um acordo entre Madri e Rio: ¿ O que há é uma relação de simpatia entre países ibero-americanos.

Mas temos esperanças de que as cidades que caiam no caminho apoiem o Rio de Janeiro ¿ disse.

Na Espanha, não são as concorrentes que andam se estranhando, mas duas das principais cidades do país. A população de Barcelona tem demonstrado pouca simpatia à candidatura de Madri. Embora a capital espanhola goze, segundo pesquisa de COI, da aprovação de 84,9% de sua população para sediar as Olimpíadas, ela encontra resistência entre os catalães. Enquetes feitas por sites de dois jornais locais mostraram que, até ontem, 80% dos leitores do ¿Sport¿ e 78% dos do ¿Mundo Deportivo¿ estavam contra a candidatura da capital do país