Título: Hora da virada
Autor:
Fonte: O Globo, 03/10/2009, Opinião, p. 6
Não era mesmo uma candidatura qualquer. Chicago ¿ a grande surpresa, pela desclassificação ainda na primeira rodada de votação ¿ seria a quinta cidade americana a hospedar os Jogos, na sua versão moderna, desde 1896; Tóquio, a segunda vez; Madri, a primeira, mas a Espanha já se beneficiara com Barcelona em 1992. Já a candidatura do Rio, como disse o presidente Lula, precisava ser entendida não apenas como uma candidatura em nome do Brasil, mas também como representante da América do Sul, excluída do circuito tradicional do maior evento esportivo do planeta ¿ quase um monopólio das nações desenvolvidas, dispostas a fazer apenas raras concessões a Atenas, por razões históricas. Fora deste clube exclusivo, também sediaram jogos a Cidade do México (1968) e Sidney (Austrália), em 2000.
Pode ser que a escolha do Rio guarde alguma semelhança com a de Seul, capital da Coreia do Sul, para os Jogos de 1988. À época, a Coreia se firmava como um dos ¿tigres¿ asiáticos, notabilizados pelo crescimento econômico a altas taxas, anos seguidos. E hoje o Brasil desponta como um dos Brics ¿ sigla de Brasil, Rússia, Índia e China ¿, bloco que, muitos apostam, dominará parcela importante do PIB mundial nos próximos anos.
No que se refere à China não há dúvidas; o mesmo com a Índia, até pelo tamanho da população.
Quanto ao Brasil, são grandes as chances, mas a depender da maturidade dos próximos governos.
É inegável que o protagonismo mundial do presidente Lula foi trunfochave na votação esmagadora obtida pela cidade sobre Madri, a segunda finalista. E por várias outras razões ¿ a estabilidade econômica e política num continente em turbulência, por exemplo ¿, o Brasil está na moda, e o Rio ¿ sua cara vista pelo mundo ¿ seria páreo duro para Chicago, Tóquio e a capital espanhola.
Em mais de 500 anos de história, o dia de ontem tem de entrar na crônica da cidade como um divisor de águas. Algo capaz de rivalizar com a chegada da família real portuguesa em 1808, em termos de poder de irradiação de benefícios inúmeros: na economia, na vida social, segurança, na política, na administração pública, entre outras áreas.
Em termos de Olimpíadas propriamente ditas, pode-se saber o que não dá certo no estudo do caso de Atenas-2004, Jogos dos quais restaram estádios ociosos e prejuízos.
Exemplo de perdas também é Montreal de 1976 ¿ foram necessárias três décadas para amortizar os gastos ¿, assim como Barcelona, ao contrário, se constitui ícone de sucesso. Um dos sonhos cariocas para 2016 é ver acontecer no Porto e Centro da cidade a metamorfose ocorrida em região parecida da cidade espanhola.
O próprio Pan-Americano de 2007 é didático sobre o que não fazer: investimentos subestimados, fiscalização precária ou inexistente, nenhuma obra importante de infraestrutura prometida no projeto executada e, como em Atenas de cinco anos atrás, equipamentos esportivos sem uso após o evento. Incluamse, ainda, neste passivo, erros técnicos na construção da Vila.
São problemas os quais, em nenhuma hipótese, podem ocorrer nas Olimpíadas.
Daí ser crucial começar, o mais cedo possível, a montagem de uma estrutura impecável de organização, planejamento, gerência. Toda permeada por uma cultura de extrema transparência na prestação de contas à sociedade, usando para isso inclusive a internet. O mesmo profissionalismo que o Comitê Olímpico Brasileiro e os governos carioca, fluminense e federal adotaram na montagem do lobby próRio, e na produção de uma eficiente apresentação aos delegados do Comitê Internacional ¿ com uma mistura de emoção e objetividade na dose certa ¿, precisa ser mantido como regra em todo o enorme trabalho que há pela frente.
Inevitáveis as análises sobre as implicações políticas da vitória.
A imagem de Lula se fortalece ainda mais, dentro e fora do país; o governador Sérgio Cabral aparece como forte parceiro do Planalto e consolida o estilo de trabalho em dupla com o prefeito Eduardo Paes. Vale destacar o efeito prático do benefício para todos quando há um trabalho conjunto das três esferas administrativas ¿ municipal, estadual e federal. Pelo passado de capital federal, o Rio é a cidade brasileira que mais padece quando essas esferas não se entendem ¿ infelizmente, a regra de muitos anos; quebrada, ainda bem, agora.
A responsabilidade dos administradores públicos e empresários privados que se envolverão no projeto Rio-2016 é reverter de vez o dramático processo de esvaziamento enfrentado pela região metropolitana carioca a partir de 1960, com a transferência da capital para Brasília.
Nos últimos tempos, com a ampliação da produção e procura de petróleo no litoral fluminense, bem como a execução de grandes projetos industriais na região, a decadência acelerada do Rio de Janeiro foi contida. Mas ficaram sequelas na favelização, na criminalidade, no subemprego, na máquina pública de qualificação inferior à de outras cidades e estados. A organização, a realização e o legado que podem deixar as Olimpíadas representam uma oportunidade única, histórica, de o Rio se recuperar definitivamente, com implicações positivas óbvias para todo o país.