Título: A internet facilita ver políticos mais de perto
Autor: Farah, Tatiana
Fonte: O Globo, 04/10/2009, O País, p. 11
Criador da campanha de Obama na rede e por celular é cobiçado por candidatos brasileiros para as eleições de 2010
ENTREVISTA Scott Goodstein
O estrategista político Scott Goodstein, um dos criadores da campanha eleitoral de internet e celular do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, valoriza a rede social Twitter como uma das ferramentas das próximas eleições e diminui o papel do carisma para eleger um candidato. Ele afirma que a internet e a tecnologia são importantes, mas faz a ressalva de que as pessoas entravam no YouTube para assistir ao discurso de Obama pela ¿razão certa¿ ¿ o conteúdo do que o então senador queria dizer aos americanos, principalmente sobre economia.
Goodstein confirma que está sendo procurado pelos políticos brasileiros, mas não diz quais. Ele virá ao Brasil para o seminário ¿O Efeito Obama¿, que será promovido pela George Washington University, daqui a duas semanas, em São Paulo.
Tatiana Farah SÃO PAULO
O GLOBO: Como a internet fez diferença no caso da eleição de Barack Obama nos Estados Unidos? SCOTT GOODSTEIN: Eu acho que não fez. Penso que Barack Obama fez sua campanha, e a internet foi uma das muitas ferramentas que ele usou. Mas a vitória foi de Barack Obama e da mensagem de Barack Obama. Falamos de redes sociais, de rede de mídia, que são grandes ferramentas; mas as pessoas não estavam animadas com a tecnologia, e sim com Obama.
No Brasil temos um sistema eleitoral diferente dos Estados Unidos e, infelizmente, temos um acesso bem menor da população à internet. Como a internet pode contribuir com as eleições? GOODSTEIN: Não sou um expert na política brasileira, posso dizer uma tolice, mas, em geral, uma campanha é sobre como um candidato pode falar dos problemas do país com os eleitores. E, no Brasil, tem-se a imensa oportunidade de trocar mensagens com o eleitor pela rede de uma maneira que nunca se teve antes.
Como o senhor acha que a internet pode deixar a política mais atraente? GOODSTEIN: A internet facilita ver políticos mais de perto.
Ler, assistir e ouvir os discursos.
As pessoas podem ver, em tempo real, por vídeo, o que está acontecendo nas eleições. Os eleitores podem se organizar em encontros pela internet.
`Conceito da rede é engajar as pessoas¿
A distância entre os políticos e a população fica, de fato, menor, ou isso é irreal? GOODSTEIN: Eu acho que você fica mais próximo e conectado com o político. A rede social Twitter, por exemplo, permite que se possa seguir o que os políticos estão fazendo. E o Twitter é um exemplo que não existia há dois anos. Há essas ferramentas que permitem a proximidade com o político, que permitem ver o político.
O eleitor vê o político no Twitter, mas o político também o vê? Como tem sido usado no Brasil, o Twitter parece uma grande plataforma de marketing dos políticos.
GOODSTEIN: O político pode te ver sim. Você pode mandar mensagens, que podem ser respondidas imediatamente. Você pergunta, e eu respondo. Eu não sei o quanto as pessoas estão usando o Twitter no Brasil, mas o conceito é de engajar as pessoas e não de fazer marketing.
O Congresso brasileiro está tentando impor regras para a internet nas eleições de 2010. O senhor acha isso possível? GOODSTEIN: As pessoas vão ter um diálogo político, e acho que isso não pode desencorajálas.
É importante ter esses diálogos, seja sobre a política nacional, seja sobre a local. Não sei as regras que serão feitas no Brasil, mas acho que os políticos têm é que encorajar as pessoas a estar cada vez mais engajadas no debate.
l Os dois principais pré-candidatos brasileiros, Dilma Rousseff (PT), e José Serra (PSDB), são conhecidos por sua falta de carisma....
GOODSTEIN: Isso é verdade? É o que dizem. Como eles podem lidar com isso? Como profissionais da área podem ajudá-los? GOODSTEIN: Qual o problema do Brasil? Este deve ser o foco das eleições. Nos EUA, claramente a questão era a economia, que estava indo por um caminho, e as pessoas votaram para que fosse por outro. Tive a honra de trabalhar com alguém que estava do lado certo da questão. Não sei o suficiente sobre os candidatos brasileiros, mas as pessoas vão decidir sobre o futuro do país. As pessoas assistiam no YouTube aos discursos de Obama, mais do que nunca, pela razão certa, que era o teor do discurso, e não por causa de outros motivos. Vão à internet para se engajar na discussão desses problemas importantes na eleição. Política não é sempre excitante ou agradável para todos. Os Estados Unidos já viveram muitos momentos de transição. Agora, o Brasil está lidando com um tempo semelhante ao dos EUA, em que temos um presidente muito, muito popular.