Título: Vender remédio faz bem... para o bolso
Autor: Ribeiro, Fabiana; Ribeiro, Erica
Fonte: O Globo, 04/10/2009, Economia, p. 37
Setor cresce 12,5% e atrai grandes investidores. País já tem 60 mil farmácias, dobro do recomendado
Um país com quase 60 mil farmácias do Oiapoque ao Chuí ¿ leia-se: o dobro do número de lojas recomendado por especialistas.
Ainda que o Brasil tenha mais drogarias do que padarias (52,5 mil) e as escolas de nível médio (25,7 mil), esse setor despertou o interesse de investidores consagrados, como o Fundo Gávea, do ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga ¿ que comprou parte da Droga Raia ¿ e o BTG Pactual, do banqueiro André Esteves ¿ que arrematou a Farmais há cerca de dez dias ¿ além de grupos estrangeiros e até de grandes redes de supermercados.
Não à toa. As farmácias são um negócio altamente rentável e devem encerrar 2009 com faturamento de R$ 31,5 bilhões ou 12,5% acima dos R$ 28 bilhões do ano passado.
Essas cifras sobem com a frouxa fiscalização do segmento, com o hábito do brasileiro de se automedicar e o avanço de renda das famílias, especialmente das classes C e D.
¿ É um negócio rentável, tem margem garantida, volume crescente, é imune à crise. Em mercados maduros, como Europa e EUA, não há mais espaço para crescer. O Brasil é a bola da vez. Há projeções de dobrar o faturamento do setor nos próximos cinco anos. Para o consumidor, isso representa preços menores, pois o maior número de lojas e redes acirra a disputa no setor ¿ disse Edison Tamascia, presidente da Federação Brasileira das Redes Associativistas de Farmácias (Febrafar)
Rio tem 2 mil farmácias além do que deveria
Na avaliação de Paulo Oracy Azeredo, presidente do Conselho Regional de Farmácia do Rio, há um excesso de farmácias no país.
¿ A Organização Mundial de Saúde recomenda que para cada quatro mil habitantes exista uma farmácia. Fazendo essa conta, o Estado do Rio tem hoje 5,6 mil farmácias, enquanto deveria ter 3,6 mil em funcionamento.
Isso acontece porque a Lei 5.991, de 1973, permite que a abertura de uma farmácia seja feita como a de qualquer negócio do comércio. Mas está havendo um aperto da legislação ¿ diz Azeredo, acrescentando que o atual modelo de farmácias acaba incentivando a automedicação.
¿ O sistema ¿pegue e pague¿ impede o uso racional do medicamento, que deve ter a orientação de um farmacêutico.
O diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Dirceu Raposo de Mello, também tem a opinião pessoal de que o país tem mais farmácias do que deveria. Porém, segundo ele, se todas as farmácias do país atendessem corretamente à legislação, o número de estabelecimentos não importaria tanto: ¿ As farmácias são um comércio que fatura milhões. Se todas cumprissem a lei não teria problema. Mas uma concorrência que estimula apenas a disputa de preços pelo consumo não faz sentido. Nosso trabalho tem sido intensificar e ampliar processos para punir aqueles que não cumprirem corretamente a lei. A meta é cada vez mais qualificar o atendimento, fazer valer o cumprimento da legislação, com a presença do farmacêutico na farmácia, estimular o uso racional do medicamento. Não recomendo esse negócio a leigos porque esse é um mercado que cada vez mais irá se profissionalizar.
Segundo ele, a automedicação se combate qualificando os serviços e o atendimento.
¿ É desta forma que se constrói a cultura de que o medicamento deve ser consumido com orientação. A escolha é sempre do consumidor, mas ele tem direito a ser bem orientado.
Para Mauro Pacanowski, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), a entrada de novos investidores vai profissionalizar um setor que, a despeito do enorme crescimento, é bastante familiar. Um exemplo é a Droga Raia, com mais de cem anos no varejo brasileiro. Na rede, já atuava a terceira geração da família que a fundou até chegada de Arminio Fraga no negócio.
¿ De olho na alta rentabilidade do setor, mais investidores devem entrar no ramo. Ao tornar o negócio mais profissional, o que se tem são custos menores. O que é ótimo para o consumidor, que ganha em qualidade de atendimento e melhores preços ¿ disse Pacanowski, acrescentando que as novas regras do setor, anunciadas pela Anvisa neste ano, estabelecem restrições a venda de não-medicamentos e o retorno de remédios para o balcão. ¿ Isso pode fazer as vendas de algumas redes recuarem.
Em busca da ampliação, algumas redes de farmácia foram bater às portas do BNDES atrás de crédito para expansão e reforma. Carlos Eduardo Castello Branco, chefe de departamento da área industrial do BNDES, confirma que a demanda por empréstimo tem crescido, tanto nas grandes redes quanto nas de pequeno e médio porte. Esse movimento começou a ganhar força a partir de 2004. O banco oferece duas modalidades de financiamento, uma para empréstimos acima de R$ 10 milhões (Finem). Nessa linha, os desembolsos estão, até setembro, em R$ 46 milhões, contra R$ 42 milhões de todo 2008.
Nas linhas de crédito automáticas, até R$ 10 milhões (Finame, cartão BNDES), os desembolsos estão em R$ 27 milhões até setembro.
Em 2008, o total foi de R$ 22 milhões. O banco não concede financiamento para aquisição de ativos. O tempo de aprovação dos pedidos de financiamento é de, em média, seis meses.
Para Castello Branco, a melhoria da renda da população e o aumento da expectativa de vida do brasileiro geram perspectivas de crescimento. Ele afirma que crescerá neste mercado quem se organizar, cumprindo as exigências do setor.
¿ Entre os clientes que já usam linhas do banco estão a Drogasil e a Droga Raia. E há outras apresentando solicitações.