Título: União Europeia pode retomar negociações com o Mercosul
Autor: Oliveira, Eliane
Fonte: O Globo, 05/10/2009, Economia, p. 21
Livre comércio será discutido em cúpula de Estocolmo
BRUXELAS. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega hoje a Estocolmo, na Suécia, para participar da III Cúpula União Europeia (UE)-Brasil, esperando ouvir boas notícias do bloco: a retomada das negociações entre UE e Mercosul, suspensas desde 2004. Com ela será criada a maior zona de livre comércio do mundo. Espera-se ainda que os europeus assinem acordo trilateral para a produção de etanol e outros biocombustíveis na África. Nada, porém, será de graça.
A UE vai cobrar maior engajamento de Lula nas questões internacionais, como a adoção de metas ambiciosas para reduzir o desmatamento na Amazônia, permeada por uma aliança efetiva do Brasil com o bloco na conferência mundial sobre o clima, em Copenhague, prevista para dezembro.
Além disso, entre os europeus, a avaliação é que o fato de a fase mais aguda da turbulência internacional ter sido amenizada não significa que a UE vai ceder numa negociação comercial. Com o desemprego em alta e a previsão de queda nas economias da região, é preciso relançar a Rodada de Doha na Organização Mundial do Comércio (OMC) e conversar com o Mercosul, desde que se permita o maior acesso a bens e serviços no bloco sulamericano. Só assim, será possível redução dos subsídios agrícolas.
- No multilateralismo, todos têm de pagar - disse o porta-voz da Comissão de Agricultura da UE, Michael Mann.
As negociações envolvendo o Mercosul terão que contar com Argentina, Uruguai e Paraguai. O relançamento ocorrerá em maio de 2010, em uma reunião em Madri, na Espanha.
- O diálogo sobre um acordo entre Mercosul e UE já ocorre entre altos funcionários dos dois lados, mas longe dos holofotes - revelou uma graduada fonte do governo brasileiro.
Para driblar barreiras, etanol pode entrar na UE pela África
No caso dos biocombustíveis, o Brasil pode driblar as barreiras do bloco, exportando o produto para a Europa via África. Alguns países da região demonstraram interesse pelo acordo trilateral (Brasil-África-UE). E ainda há as medidas protecionistas da UE. Vêm aí novas barreiras contra as importações de frango do Brasil. E as autoridades se preparam para defender o acesso ao mercado europeu na OMC.
A UE quer que os países emergentes, incluindo o Brasil, assumam metas de redução das emissões de gases de efeito estufa de 15% a 30% até 2020.
- Nossa grande expectativa é ouvir o que o presidente Lula dirá a esse respeito - comentou um alto funcionário europeu.
Temas políticos estão na pauta, como a crise em Honduras e a visita do presidente do Irã, Mahmud Ahmadinejad, ao Brasil, mês que vem. Os europeus querem que Lula convença o líder iraniano a seguir o princípio da não proliferação de armas nucleares. A despeito das pendências, o presidente da UE, José Manuel Durão Barroso, diz que existe uma cumplicidade inédita entre o Brasil e o bloco.
(*) A repórter viajou a convite da Comissão Europeia