Título: Ofensiva espanhola na telefonia
Autor: Rosa, Bruno; Tavares, Mônica
Fonte: O Globo, 08/10/2009, Economia, p. 23
Na briga com franceses, Telefônica faz oferta de R$6,5 bi para levar GVT e enfrentar Oi-BrT
Depois da criação da supertele nacional, com a compra da Brasil Telecom (BrT) pela Oi, a consolidação do mercado de telecomunicações no país tem novo capítulo. O centro da disputa agora é a GVT - empresa de telefonia fixa e de banda larga presente em 14 estados e Distrito Federal - que, ontem, recebeu a segunda oferta de compra em menos de um mês. Após o grupo francês Vivendi ter oferecido R$5,4 bilhões no início de setembro por 100% das ações da companhia, a Telesp, empresa do grupo espanhol Telefônica que atua em São Paulo, entrou na briga e ofereceu R$6,5 bilhões em dinheiro pelo controle da GVT. Criada em 1999 como empresa-espelho, a GVT foi autorizada a atuar nas regiões Sul e Centro-Oeste, onde já concorre com a supertele.
Segundo analistas, a Telefônica ofereceu R$48 por cada uma das 128,5 milhões de ações ordinárias (ON, com direito a voto) da GVT. O valor é considerado alto, mas positivo a médio e longo prazos para o grupo espanhol, que no Brasil é dono de metade da Vivo. A Vivendi havia oferecido R$42 por ação da GVT há um mês - um lance aceito e que originou pedido de anuência prévia à Agencia Nacional de Telecomunicações (Anatel).
Fontes envolvidas nas negociações afirmam que a companhia francesa - que tem interesse em entrar na América Latina - estaria pensando em fazer uma nova proposta. A mexicana Telmex, dona de Embratel, Claro e parte da Net, também teria aparecido como candidata à compra da GVT. Porém, fontes na Telmex negaram o interesse. Correndo por fora estariam ainda a CTBC, que atua no triângulo mineiro, e investidores que não são operadores de telecomunicações.
Telefônica fará empréstimo
Gilmar Camurra, diretor financeiro da Telefônica, disse que o preço oferecido é justo e representa o valor real da GVT. Ele não comentou se a empresa estaria disposta a fazer uma outra proposta, de valor maior.
- Comunicamos a nossa oferta aos controladores da GVT de forma elegante. Só comunicamos, mas não temos um feedback. Queremos 100% das ações da empresa e, com isso, a resposta é automática (a empresa teria o capital fechado na Bolsa). Estamos seguros de nossas condições. Nossa oferta é 14,3% maior que a da Vivendi e estamos pagando 32,4% a mais que o valor das ações da GVT no dia anterior à nossa oferta - afirmou Camurra, em conferência com analistas.
O executivo destacou que os acionistas da GVT têm 15 dias para aceitar a proposta. E para a oferta ser efetivada, a compra de ações tem de chegar a 51%. Analistas classificam a operação como uma oferta hostil.
- O instrumento usado para fazer uma oferta hostil é a oferta pública voluntária de aquisição de ações - explica Saulo Sabbá, da Máxima.
Segundo Camurra, da Telefônica, caso leve a GVT, a Telesp será a segunda maior empresa de banda larga do país, atrás da Oi. De acordo com projeções, o lucro da empresa teria um aumento de 2%, e a geração de caixa avançaria 6%. No ano passado, a Telesp faturou R$23 bilhões. Camurra destacou que os 15 mil quilômetros de rede e os 350 mil clientes corporativos da GVT no país possibilitarão sinergias importantes.
- Será preciso fazer um financiamento para comprar as ações- diz Camurra.
Para Eduardo Roche, gerente de análise da Modal Asset Management, a Telefônica vai complementar sua área de atuação e levar uma empresa menor, mas bem gerida e com investimentos importantes em conteúdo e banda larga. Para a Corretora Ativa, os acionistas da GVT são beneficiados pelo maior valor da oferta. Já a Telefônica deixará de ser uma boa pagadora de dividendos, pelo menos enquanto estiver endividada. Na Bovespa, a GVT - que tem 69% de suas ações no mercado - registrou alta de 13,69% ontem, enquanto os papéis mais líquidos da Telesp caíram 1,6%.
Especialistas: GVT é apetitosa e vale ouro
Segundo o especialista Virgílio Freire, o preço oferecido pela Telefônica é alto, mas é o valor para se comprar um espaço maior no país.
- A tendência no setor é de consolidação. A Telefônica está isolada em São Paulo, enquanto Oi e os mexicanos estão presentes em todo o país. Essa aquisição é vital para o grupo espanhol garantir maior presença na América Latina - ressalta.
Na avaliação do consultor Juarez Quadros, ex-ministro das Comunicações, a GVT tem uma rede que permite transmissão de voz, dados e imagem com altíssima qualidade:
- A GVT vale ouro. Tem uma rede moderníssima e arrojada.
O consultor Renato Guerreiro, ex-presidente da Anatel, afirmou ainda que considera um passo natural a Telefônica ter feito a oferta pela GVT. O lance da Vivendi, segundo ele, foi fundamental para que a espanhola se movimentasse.
- Quando a GVT prosperou, tornou-se uma empresa apetitosa.
A GVT só não atua ainda na telefonia celular. Mas quando esteve com o ministro das Comunicações, Helio Costa, há 15 dias, o presidente da GVT, Amos Genish, informou que em 2010 a empresa fará essa estreia.
- (A venda do controle) vai turbinar o nosso negócio. Adicionar mais valor, vamos entrar mais rápido em outras cidades e, no futuro, em celular - disse Genish.