Título: Em jogo, a maior empresa privada da América Latina
Autor: Barbosa, Adauri; Camrotti, Gerson
Fonte: O Globo, 14/10/2009, Economia, p. 19
Valor de mercado passou de US$ 8 bi para US$ 125 bi desde a privatização. Analistas criticam interferências.
A Vale de hoje, que está no alvo das críticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é bem diferente da empresa que foi privatizada em 1997. A companhia ¿ a maior firma privada do Brasil e da América Latina ¿ exibe números que a tornaram uma gigante, com receita de US$ 38,5 bilhões em 2008, comparável ao Produto Interno Bruto (PIB, soma de produtos e serviços produzidos em um ano) do Uruguai.
Sua receita aumentou em oito vezes, o lucro líquido foi multiplicado por 29, seu valor de mercado passou de cerca de US$ 8 bilhões para US$ 125 bilhões, e o número de empregados, que era de 10 mil, está em 60 mil.
Além de maior produtora de minério de ferro do mundo, a Vale assumiu uma posição preponderante em outros setores vitais para a economia brasileira, como agronegócio, logística e geração de energia. A Vale administra as principais vias férreas, controla grandes portos, possui nove hidrelétricas e é a única produtora no país de insumos para fertilizantes. Seus investimentos, na casa dos R$ 18 bilhões, chegam a todas as regiões, e sua rede de fornecedores, de 10 mil empresas, só é inferior à cadeia de companhias que orbitam em torno da Petrobras. A Vale também figura como maior consumidora de energia elétrica, diesel e biodiesel do Brasil.
Apesar dos números e de uma estratégia de sucesso em um setor globalizado, a Vale tem sido alvo de críticas do presidente Lula. O governo está insatisfeito com a condução dos investimentos da empresa, que, buscando lucros, muitas vezes toma decisões que não estariam desenvolvendo diretamente a indústria nacional.
Em fevereiro, em viagem a Recife, o presidente classificou como ¿um absurdo¿ as demissões que a empresa fez em meio à retração causada pela crise mundial ¿ Lula disse que ligou para o presidente da empresa, Roger Agnelli, para reclamar. Em setembro, Lula questionou a compra de navios chineses.
¿ É impossível a Vale continuar comprando navio na China quando a gente está montando a indústria naval aqui ¿ disse Lula na ocasião.
Operador diz que Eike pode estar sendo usado pelo governo As reclamações de Lula não repercutem bem, segundo analistas de mercado. Além de afetar a imagem da empresa, alguns especialistas sugerem que o presidente tenta influenciar as estratégias de negócios de uma empresa privada, mas que possui em seu controle acionário instituições de forte caráter estatal. A BNDESpar (braço de participações em empresas do BNDES), por exemplo, é estatal, e os fundos de pensão sofrem forte influência política. Assim, as opiniões de Lula sobre a Vale não são tão ineficazes quanto as críticas que ele costumeiramente faz a bancos.
Os analistas veem com certa desconfiança o interesse de Eike na Vale.
Segundo um operador que pediu para não ser identificado, o empresário pode estar sendo usado pelo governo para pressionar a troca de controle na mineradora. Em sua avaliação, se o interesse de Eike for real, ele pode fazer uma oferta pública hostil (diretamente aos acionistas), mas este não parece ser o perfil do empresário.
Para outro analista, o risco é que Eike influencie a Vale a negociar com as empresas de seu grupo, o EBX. No entanto, para a Vale, essa influência seria prejudicial, pois caracteriza conflito de interesse. A presença de Eike na Vale facilitaria até a venda dos braços de mineração (MMX) e logística (LLX) de seu conglomerado: ¿ Com ele na Vale, fica mais fácil seduzir acionistas para a compra das duas companhias, apesar de a Vale nunca ter manifestado interesse nessas empresas ¿ afirmou uma fonte.
Vale, fundos de pensão e Eike Batista não comentaram as movimentações que ocorrem nos entornos da Vale. A Petros, fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, que está no controle da empresa, informou que ¿não pensa em vender sua parte na Vale