Título: Lula orquestra troca na Vale
Autor: Barbosa, Adauri; Camrotti, Gerson
Fonte: O Globo, 14/10/2009, Economia, p. 19

Com ajuda de Eike, cresce pressão para saída de Agnelli. Planalto nega audiência a executivo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva comanda, nos bastidores, uma ofensiva para desestabilizar o executivo Roger Agnelli na presidência da Vale, a maior empresa privada do Brasil. Nos últimos 15 dias, ele deu sinal verde aos fundos de pensão estatais sócios da mineradora e à ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, para publicamente cobrarem e criticarem a gestão da empresa. A estratégia foi reforçada com a adesão cuidadosamente pensada do empresário Eike Batista. Estimulado por Lula, o dono do grupo EBX deu entrevistas contundentes no fim de semana atacando as escolhas de Agnelli ¿ que, ontem, viajou às pressas a Brasília para tentar uma audiência com Lula, que lhe foi negada.

O Palácio do Planalto alegou que a agenda do presidente da República estava lotada. No núcleo do governo, a percepção é que Agnelli ficou muito preocupado com as investidas de Eike. A avaliação reservada é que isso é positivo, pois, mesmo que não resulte na saída de Agnelli, pressiona o atual comando da Vale a retomar uma atuação mais afinada com os objetivos da União. Por isso, não existe articulação oficial ainda sobre nomes para substituir o executivo.

¿ O Roger Agnelli começou a correr atrás do prejuízo ¿ resumiu um interlocutor do presidente Lula.

Desde o início do ano, quando a companhia foi fortemente afetada pela retração da economia mundial, Lula questionou ¿ até mesmo publicamente ¿ a estratégia da Vale para escapar da crise. A demissão de cerca de quatro mil funcionários sem comunicação prévia ao governo, em fevereiro, foi a primeira fonte de descontentamento.

A segunda foi o pé no freio em investimentos domésticos de longo prazo, como o Pólo Siderúrgico de Marabá, avaliado em US$ 5 bilhões e que deixaria a empresa menos dependente da comercialização de matériaprima. O projeto permitiria maior valor agregado à produção da Vale, ao entregar aço.

Lula, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente da Previ (fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, acionista da Vale), Sérgio Rosa, também ficaram descontentes com a demissão de Demian Fiocca de uma diretoria da empresa ¿ Agnelli teria sido agressivo.

A gota d¿água foi a campanha publicitária levada ao ar recentemente pela Vale, na qual destaca seu papel como empregadora e investidora no Brasil. A propaganda foi tida como ¿bate-boca público¿ com Lula.

Ontem, em conversas reservadas, Lula afirmou a auxiliares que o que tinha para fazer já fez quando pediu mais atenção ao investimento interno da Vale. Disse ainda que a mineradora não pode ser uma empresa com uma imagem de que ¿só sangra o Brasil¿.

¿ Se a Vale pegasse o dinheiro gasto em propaganda, poderia fazer bons investimentos no Brasil ¿ cutucou ontem uma fonte do Planalto.

O presidente encontrou em Eike Batista o porta-voz de que precisava.

Lula o considera um empresário extremamente agressivo, ousado e realizador, e ficou impressionado com a ação de Eike para trazer as Olimpíadas ao Rio, tendo investido do próprio capital R$ 23 milhões. O presidente gosta do discurso de Eike de ¿acreditar no Brasil¿ e de seu estilo de trabalhar em parceria com o poder público.

A aproximação de Lula com Eike tem alguns meses e teve ajuda importante do governador Sérgio Cabral (PMDB). Ganhou impulso em 21 de setembro, quando tiveram um encontro em Nova York. Lula sentiu que Eike estava convicto do movimento em direção à Vale ¿ o dono da EBX iniciou conversas com o Bradesco, um dos principais acionistas e responsável pela indicação de Agnelli, e com a Previ, que tem mais ações da Vale do que pode em seu estatuto e precisa se desfazer delas. O presidente, então, o estimulou a partir para o ataque.

Lula também liberou outros agentes a fazer cobranças. Em quatro dias, Guilherme Lacerda, presidente da Funcef (fundo de pensão dos funcionários da Caixa, também sócio da Vale), Sérgio Rosa, da Previ, Dilma e Eike criticaram publicamente planos, planejamento e a gestão da Vale.

Eike chegou a sugerir, em entrevista a ¿O Estado de S.Paulo¿, que Agnelli poderia ter quebrado a empresa se tivesse comprado a mineradora suíça Xstrata e afirmou que sonhava com Sérgio Rosa dirigindo a Vale.

A tentativa de se encontrar ontem com Lula não foi a única ofensiva política de Agnelli para se manter no comando da Vale e recuperar o apoio do governo. Há duas semanas, ele esteve num jantar com o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), na casa do publicitário Luiz Salles. Temer nega que Agnelli tenha pedido apoio político e diz que ele falou sobre as atividades da Vale no encontro.

Em dia de alta na Bolsa, Vale recua

A avaliação no núcleo do governo é que Eike já deu passos importantes para adquirir ações da Vale, ao antecipar sua aproximação com governo, fundos de pensão e BNDES. Hoje, ele tem a simpatia pessoal do presidente Lula. Mas o governo não deve pressionar o Bradesco a vender ações.

Isso terá que ser uma negociação sem a presença do governo.

A oposição criticou ontem o que chamou de ingerência do governo.

¿ O governo quer instrumentalizar a Vale. A Vale é uma empresa que vai muito bem, remunera corretamente os seus acionistas, além de ser uma mineradora importante para o conceito internacional do país. Pelo jeito, está faltando emprego para os companheiros ¿ provocou o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE).

O presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), negou: ¿ Não há ingerência, mas, como toda empresa grande, a Vale costuma conversar com o governo. Como tem a presença de grandes fundos de pensão, é natural que haja um diálogo maior com o governo.

Mas isso não é ingerência.

As ações da Vale têm oscilado ao sabor das especulações. Ontem, os papéis da mineradora caíram 0,33%, num dia em que o Índice Bovespa subiu 0,90%. Já as ações da MMX Mineração, controlada por Eike, provável beneficiada e possível veículo de compra da fatia da Vale, registram a maior alta no ano entre os papéis do Ibovespa, com valorização de 385,20% desde janeiro. Ontem, subiram 5%.