Título: Sem consenso climático
Autor: Alencastro, Catarina; Éboli, Evandro
Fonte: O Globo, 14/10/2009, Ciência, p. 28

Ministros não chegam a acordo sobre proposta, a dois meses de reunião da ONU

O governo não se entendeu na primeira reunião em que foram apresentadas as propostas que o país poderá levar para a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, em dezembro, em Copenhague, na Dinamarca. Reunidos com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, os ministérios do Meio Ambiente e o da Ciência e Tecnologia, além do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, representando a sociedade civil, colocaram na mesa suas sugestões, mas não houve consenso.

Enquanto o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, levou uma proposta bastante ambiciosa, na qual previa a estabilização das emissões de gases-estufa em 2020, com base nas emissões de 2005, o Fórum, juntamente com o Ministério de Ciência e Tecnologia, contestava a viabilidade desta meta. É que para que se chegue nisso, seriam necessários recursos externos da ordem de US$ 10 bilhões por ano.

Só dois pontos são consenso no governo brasileiro: o comprometimento de redução do desmatamento da Amazônia em 80% até 2020, com relação à média do desmatamento ocorrido entre 1996 e 2005, em torno de 19.000 km2, e a cobrança de que os países desenvolvidos cortem suas emissões em 40% até 2020, com base no que era emitido em 1990. Para o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), braço científico da ONU, para que o mundo não enfrente um aumento de temperatura superior a 2 graus Celsius e mudanças catastróficas no clima, os desenvolvidos devem cortar de 25% a 40% de suas emissões.

¿ O ideal seria que o desmatamento fosse erradicado de todo o país em seis anos ¿ pondera o superintendente de conservação do WWF Brasil, Cláudio Maretti. ¿ Hoje, o Cerrado é tão devastado como a Amazônia no começo da década.

Não adianta proteger apenas um ecossistema.

Segundo o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, o presidente elogiou as propostas, mas pediu aos ministros que refizessem os cálculos e apresentassem, em nova reunião, outros cenários possíveis. Segundo ele, a ministra Dilma sugeriu que percentuais de crescimento maiores sejam considerados nos cálculos. O Meio Ambiente só trabalhava com a expectativa de que o Brasil crescesse 4% ao ano.

¿ O Lula manifestou seu agrado e elogiou as propostas. Disse que o próximo passo é sintetizar as três posições para o Brasil apresentar em Copenhague ¿ disse Minc, minimizando as diferenças entre as posições dos ministérios e das ONGs.

Para Luiz Pinguelli Rosa, secretárioexecutivo do Fórum, haverá dificuldade em conciliar as propostas, embora não tenha adiantado qual é a sua. Entre os desacordos, a questão de quem vai pagar a conta para que o país diminua o ritmo de elevação de suas emissões, sem reduzir o crescimento econômico

Investimento é o maior entrave

Para chegar na estabilização em 2020, como defende o Meio Ambiente, serão necessários investimentos robustos para o desmatamento da Amazônia e do Cerrado, para incentivar os biocombustíveis, para que a indústria siderúrgica plante todo o carvão vegetal que utiliza e para resolver a questão do lixo.

A construção de um mecanismo de financiamento para que países ricos banquem projetos de mitigação das mudanças climáticas nos países em desenvolvimento é um dos entraves da negociação da Conferência da ONU. Apesar das divergências, os ministros dizem que o Brasil terá uma posição forte em Copenhague.

¿ O Brasil terá posição importante, protagonista e coerente com sua pretensão de desenvolvimento sustentável ¿ afirmou o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim.

Hoje, os ministérios do Meio Ambiente, da Ciência e Tecnologia, das Relações Exteriores, da Fazenda e da Casa Civil farão uma reunião para tentarem aproximar suas propostas. O governo espera anunciar a posição do Brasil no dia 20.