Título: Vai para a sua terra. Vai embora
Autor: Passos, José Meirelles
Fonte: O Globo, 11/10/2009, O País, p. 3
Bolivianos empregados em confecções sofrem preconceito em SP.
SÃO PAULO. Bolivianos formam hoje um dos maiores grupos de imigrantes em São Paulo. Trabalham em regime de semiescravidão nas confecções de roupas em São Paulo, por baixos salários e jornadas extenuantes de trabalho. Costumam trocar salário de US$ 30 mensais na Bolívia por pagamentos que vão de US$ 300 a US$ 500 (cerca de R$ 1 mil) no Brasil, muitas vezes em fábricas irregulares, que não têm autorização para funcionar e nem recolhem impostos. Muitos imigrantes são irregulares.
Para os bolivianos, muito tímidos, é difícil admitir a discriminação. Aos poucos, alguns vão contando que, nas ruas, são xingados e mandados embora.
¿ De vez em quando alguém fala assim: `Vai para a sua terra. Vai embora daqui¿ ¿ revela a costureira Rosária Mancila, há cinco anos no Brasil.
Natural de Oruro, capital de um dos estados da Bolívia, Rosária, de 30 anos, mora em São Paulo com o filho de 4 anos. Não sabe se voltará ao seu país.
Aos 36 anos, Miguel Jimenez Gonzalo, de Santa Cruz de La Sierra, tenta não responder, mesmo aparentando ter vontade de falar das dificuldades pelas quais passa no país. Pensa antes de falar, mas admite: ¿ Já vi brasileiros xingando bolivianos. Falam palavrão, coisa feia, a gente nem sabe direito o motivo.
Outros bolivianos, como Javier Huanca Torres, de 34 anos, dizem que nunca viram cenas de discriminação.
¿ Pelo menos eu nunca vi ¿ afirma o costureiro, que veio de Cochabamba há dois anos, onde era pedreiro.
Muitos imigrantes temem ser vítimas de deportação, sobretudo os que vivem de forma irregular no Brasil. Mas eles também têm elogios ao país.
David Condore Queso, que veio de La Paz e está em São Paulo há quatro anos, destaca a oportunidade de trabalhar no Brasil. Diz que os brasileiros respeitam muito sua família. Sua mulher, que cuida do casal de filhos pequenos, concorda balançando a cabeça.
¿ Vivo bem e não posso reclamar ¿ conta David, que trocou a profissão de vendedor pela costura.
Para o coordenador da Pastoral dos Migrantes, padre Mário Geremia, na tradição indígena dos bolivianos a solidariedade ajuda na sobrevivência dos pobres. Ele diz que o boliviano sofre com sua timidez: ¿ O boliviano é um indígena, não é de falar muito.
Por isso sofre rejeição. Falam que são sujos, mandam embora, xingam, dizem que não têm disciplina. São muito discriminados.
De acordo com o padre, além de bolivianos, há paraguaios, peruanos, equatorianos e colombianos. Os problemas são comuns a imigrantes de qualquer país: ¿ Todos querem uma vida melhor. Querem trabalho, possibilidade de viver melhor, serem respeitados.
Até pessoas que já viveram a discriminação, como os nordestinos, demonstram intolerância. Padre Mário conta que organizou uma festa com imigrantes na Vila Guilherme, bairro onde moram principalmente nordestinos, discriminados nos anos 1950. E se surpreendeu com a reação negativa da comunidade.
¿ Depois da festa, quando abri o e-mail, tinha uma enxurrada de ataques contra os bolivianos ¿ revela.